Publicada no dia 01/12/2009
O que eu tenho aprendido sobre liderança
Ao expor minha experiência, é importante levar em consideração que essa experiência é vivida numa situação específica de tempo e lugar: venho de um país latino-americano – o Brasil – com suas peculiares características no modo de viver, pensar, sentir, entender, etc.
São Bento, quando sugere como deve ser o Abade, diz, entre outras coisas, que o Abade deve ser um pai, um mestre, um médico, um pastor. Um pai que ama e corrige; um mestre que ensina e exige; um médico que cura e amputa; um pastor que cuida e exorta. Antes de tudo, tenho aprendido que só a graça de Deus é capaz de me revestir de todas essas qualidades de liderança monástica.
Tenho aprendido que ouvir é uma das atitudes mais importantes que uma superiora pode ter e desenvolver. É, sem dúvida, a base do nosso serviço de amor à Comunidade, e, muitas vezes, exige sacrifício e esforço. Quando servimos e nos sacrificamos pelos outros, construímos nossa autoridade, como nos ensina Jesus no Evangelho: “Quem quiser ser grande entre vós, que se torne vosso servidor; quem quiser ser o primeiro que se torne o vosso servo” (Mt 20,27).
Nesse serviço, é necessária uma boa dose de paciência, bondade, humildade, respeito, generosidade, perdão, honestidade, confiança.
É preciso, então, fortalecer nossa vontade, para que nos tornemos capazes de sintonizar nossas intenções com nossas ações e definir nosso comportamento. É preciso ter vontade para amar, isto é, sentir as reais necessidades e não os desejos daquelas que dirigimos. Tenho aprendido que amar não é apenas um sentimento, mas uma maneira de ser. Penso que, quando Jesus nos ensina que devemos amar-nos uns aos outros, esse amar não é questão de sentimento em relação aos outros, mas uma maneira de nos comportarmos em face dos outros. Daí, as palavras do Apóstolo: “o amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,7); e eu acrescentaria: e está sempre pronto a recomeçar... a começar tudo de novo, se preciso for.
Posso usar duas metáforas como ilustração:
Penso em minha comunidade como um jardim que precisa de cuidados. Meu jardim precisa ser adubado com amor, reconhecimento dos valores, mesmo com elogios. Mas precisa também ser podado, preciso exterminar as pragas. Meu jardim precisa de atenção constante e, se eu fizer minha parte e cuidar dele, colherei flores, muitas e belas. Mas... os resultados não são rápidos. “Temperando as ocasiões umas com as outras”...(RB 2,24) “conforme vê que convém a cada um”... (RB 64,14).
Ajuda-me, também, pensar na Comunidade como uma orquestra sinfônica, executando um concerto. Cada instrumento é necessário, tem sua parte, sua entrada e saída, enfim, sua beleza, na execução da peça musical. Cabe ao regente saber reger cada um e o conjunto, para que haja harmonia, fidelidade à composição e um belo resultado (“e saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir aos temperamentos de muitos” (RB 2,31). Reger requer disciplina, arte e muito amor.
Tenho constatado que devo formar um corpo com a minha comunidade – São Bento diz “corpus monasterii” – e assim estamos unidas para viver nossa condição de corpo, natural e sobrenaturalmente, – o corpo monástico. A minha responsabilidade nesse corpo é de construir a unidade, de ser um instrumento de comunhão e coesão.
O exemplo da pequena comunidade de Betânia sempre me ajuda nesse sentido. Servir a comunidade nunca esquecendo a visão do Senhor, e vivendo repleta, o quanto é possível, do mistério pascal.
Vejo o quanto é importante o atendimento pessoal de cada membro da comunidade, o que tento fazer regularmente, atendendo-as por ordem de profissão. Sempre me encanta perceber, sobretudo nas Irmãs anciãs, como são importantes para elas esses encontros. É lindo constatar em cada uma a vitalidade interior, o entusiasmo juvenil, o desejo de servir a comunidade e posso, através desses momentos, vibrar com as maravilhas que Deus opera no mais íntimo de seus corações. Viver a História da Salvação de cada uma é o que mais me fascina nesses encontros. Eles me ensinam, também, a nunca me acostumar com as maravilhas de Deus, e a estar sempre aberta para acolher a história de cada uma, com seus sofrimentos, suas dificuldades, suas lutas e suas vitórias, seu crescimento e seus propósitos, seus ideais e seus sonhos, enfim, com o que cada uma trás no mais profundo do seu coração.
Num desses encontros ocorreu algo muito edificante: A Irmã que eu atendia insistia em que eu lhe apontasse algo em que ela devesse caminhar ou se corrigir. Nada de extraordinário se não fosse uma monja de quase 90 anos! E ela acrescentava que, até o último suspiro, nós temos de progredir e temos algo a melhorar. Isso não é um exemplo de vida maravilhoso?
Nesse serviço de amor, experimento um profundo dinamismo de dar e receber; de aceitar as fraquezas de cada uma e sentir a aceitação das minhas próprias; da vulnerabilidade, visto que a vida de cada uma repercute em mim, exigindo que me esforce por ser tudo para cada uma e que o que se passa em mim também repercute na vida desse corpo.
Tenho aprendido, cada dia mais, que é muito importante a motivação diária, para olharmos juntas a meta a ser atingida, ou seja, a plena união com Deus, a santificação. E para atingir o alvo é preciso sempre olhar mais alto.
Para terminar, penso que na RB tenho o espelho, onde encontro estímulo, orientação e espaço para vivenciar minha vida de abadessa à frente de uma Comunidade, tentando, com a graça de Deus, “nada antepor a Cristo – que nos conduza juntas para a vida eterna. Amém” (RB 72, 11-12).



Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,OSB