Publicada no dia 05/09/2010
Saber escutar
Quando há cerca de um mês, fui entrevistada para um trabalho de conclusão de curso de um grupo de jornalistas, fiquei profundamente questionada com uma de suas perguntas: o que a vida monástica tem como ensinamento para o homem de hoje?
Logo vieram em minha mente muitos aspectos: o silêncio, a paciência, a perseverança, o equilíbrio, o respeito, a reverência, etc., etc., mas num segundo momento, pensei no que me parecia ser o maior ensinamento: o saber escutar.
São Bento há mais de quinze séculos intuiu isso ao iniciar a Regra, que escreveu para os monges e monjas, com a seguinte exortação:
“Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração” (Prol.1).
Escutar não é apenas ouvir – bem sabemos disso –, pois quantas vezes fazemos a experiência de ouvirmos sem escutar.
Escutar é uma disposição do coração, de acolhimento, de abertura, de respeito profundo, de obediência, de amor. Uma escuta que antes de tudo se escuta, escuta um Outro que está sempre presente quando nos colocamos a escutar.
Essa simples questão me fez pensar muito no mundo de hoje, de tantos barulhos, sons, vozes, gritos, interiores e exteriores. Nunca se viu tantas pessoas que transitam com fones de ouvidos, ouvindo, para não escutar. Daí quantas palavras ditas ao vento, quantos gritos sem socorros, quantos cantos de lamentos abafados, exterminados.
Sim, todos nós temos de redescobrir o valor do “escutar”, carregado de tolerância, de paciência, de entrega, de acolhimento e de atenção, nadando contra toda uma corrente que tenta nos arrastar para o lado contrário.
Os Evangelhos estão repletos de exemplos de Jesus que escuta, para, dá atenção aos pobres, aos cegos, aos coxos, às viúvas, aos pecadores e atende aos seus apelos, às suas súplicas, às suas necessidades.
Hoje não é raro as pessoas pagarem para serem escutadas, e muitas vezes encontrarem assim as soluções de seus problemas, de suas dificuldades. Parece, às vezes, que ninguém mais tem tempo para ouvir o outro, como se não desperdiçássemos as horas, os minutos e segundos no turbilhão de nossos barulhos...
Há um provérbio árabe que diz: “Deus dotou o homem de uma boca e dois ouvidos, para que ouça o dobro do que fala”.
Oxalá, possamos colocar isso em prática, para que nosso mundo tenha mais equilíbrio, mais pausas restauradoras, mais silêncios fecundos, mais harmonia, mais beleza.
Que a vida monástica nade contra a correnteza dos contravalores da vida hodierna e ensine testemunhando, que a verdadeira vida é feita de escuta, da escuta em primeiro lugar do próprio coração e em seguida do coração do outro onde Deus habita.


Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,OSB