Publicada no dia 03/09/2011
O mistério da filiação divina na espiritualidade beneditina
Na passagem do Evangelho da Transfiguração do Senhor, nos é relatado que da nuvem que cobriu a todos com sua sombra saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado: ouvi-o.” (Mc 9,7). Desde esta festa, venho refletindo sobre o tema deste grande mistério da filiação divina, através da revelação de Deus no Batismo do Senhor: “Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17). Pareceu-me muito claramente que o mistério da Encarnação - toda a vida encarnada de Jesus -, foi uma revelação através de si e da sua obediência à face do Pai.
Há dois movimentos que são claros e eu diria até mesmo sincronizados: fazer conhecer o Pai e testemunhar ser Filho. São inúmeras as passagens dos Evangelhos que confirmam essa realidade e, sem querer fazer uma exegese científica ou algo semelhante, cito algumas delas: na Anunciação (Lc 1,26-38), encontramos as seguintes expressões “Filho do Altíssimo”, “Filho de Deus”; “O Pai que me enviou” (Jo 12,49); “Vede que manifestação de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” (1Jo 3,1).E tantas outras!
Isso me faz pensar na importância de sermos e nos sentirmos filhos; em primeiro lugar, é claro, de Deus, e, na vida monástica, São Bento coloca essa realidade como ponto central da Regra, ao iniciar o Prólogo com as palavras: “Escuta filho e executa eficazmente o conselho de um bom pai” (RB Pról.1).
Para São Bento, a experiência de viver no mosteiro como filho é fundamental para o crescimento e o desabrochar do monge, tanto humano como espiritualmente; o que evoca, sem dúvida, uma sadia dependência de um pai.
Isso, o Patriarca dos monges do Ocidente afirma de diversos modos e de diversas maneiras em sua Regra, ensinando que o monge deve esperar e receber tudo do pai do mosteiro. “Todas as coisas necessárias devem esperar do pai do mosteiro” (RB 55,18). Há ainda os capítulos da Santa Regra que falam do cuidado, da cura, da solicitude, da diligência que o pai deve ter. Portanto, o pai é aquele que provê que sustenta que cuida.
Refleti como São Bento desenvolveu esse senso, essa convicção tão marcante e acentuada nos capítulos da Regra. Pensei, então, na experiência inicial da vida de São Bento; a experiência que fez primeiramente do perigo da super proteção de sua ama; intuitivamente ele percebeu que isso não o ajudaria em sua vida espiritual.
Depois, temos a bela experiência paterna com o cuidado, a atenção e o zelo do monge Romano. Intui que essa deve ter sido uma experiência paternal marcante na vida de nosso pai (além daquela que ele certamente teve em Núrsia com sua família natural), e que fez com ele visse a importância dessa dependência, de saber esperar esse cuidado, a porção certa, a palavra certa.
Tal experiência vivida de uma forma sobrenatural nos faz sentir que a Páscoa é o fruto dessa visão do irmão, a cada dia, a cada momento, próprio de quem aprendeu a ter um coração de filho, de esperar tudo de um pai.
Nessa terra, o treino é com um pai humano, para podermos um dia receber tudo do Pai do céu. Como Jesus mesmo ensinou: “Em verdade, vos digo, que se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3). Ora, a criança é aquela que depende em tudo dos seus pais.
Peçamos a Deus essa graça tão importante e necessária em nossa vida: de sermos filhos, no mais profundo dessa experiência, esperando tudo receber do pai.


Me.Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,OSB