Publicada no dia 22/03/2013
O FRANCISCO QUE O ESPÍRITO SANTO NOS DEU
Neste início de ano todos nós fomos profundamente tocados pelo gesto da renúncia de nosso inesquecível Papa Bento XVI, e tudo que daí decorreu: a convocação dos cardeais para o Conclave, a expectativa da eleição do novo Papa, a escolha do Papa Francisco como Bispo de Roma e sucessor de Bento XVI.
Foram muitas as emoções, as notícias, as imagens, as mensagens lidas e recebidas. Por isso gostaria, também, de partilhar um belo e profundo artigo escrito por uma de nossas monjas fundadoras, Irmã Mônica Castanheira, que com seu agudo censo de Igreja, nos chamou a atenção sobre aspectos importantes ressaltados nas primeiras palavras do então eleito Papa Francisco.
Que o Espírito Santo nos ajude a colaborar com esse Sopro novo de vida, de dinamismo, de transparência, de autenticidade, que a Igreja de Cristo é chamada a viver com o seu novo Pastor!
Me.Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,OSB

O Francisco que o Espírito Santo nos deu

As primeiras palavras do Papa recém-eleito ultrapassam o seu significado imediato, como, por exemplo:
Irmãos e irmãs, boa noite!
Esse tratamento fraterno pode lembrar a sede de fraternidade universal, que Francisco de Assis revelou no seu “Cântico do irmão sol”.
Lembra também Sto. Agostinho dirigindo-se ao seu povo de Hipona: “Eu vos guardo pelo ofício de bispo, mas quero ser guardado convosco” “. Sou pastor para vós, mas sou ovelha convosco sob aquele Pastor”. “Deste lugar sou como doutor para vós, mas sou condiscípulo vosso nessa escola sob aquele único Mestre”.
O Papa Francisco poderia explicar: “Sou Papa (Pai) para vós, mas no meio de vós sou irmão, sob aquele Pai comum”.
Irmãos e irmãs, boa noite!
Naquela imensa multidão que se comprimia na Praça de São Pedro, havia pessoas de todas “as raças, línguas e nações”, isto é, de todas as confissões e até mesmo sem fé. Assim, em vez de uma saudação cristã, Francisco quis abraçá-los, a todos, usando a saudação usual do “Boa noite!”, revelando sua sensibilidade ao homem de hoje.

Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma
O Papa Francisco começou, desse modo, a sua primeira catequese. Todos pensam que o Conclave deveria eleger um Papa, mas o Papa é Papa por ser, antes, o Bispo de Roma.
Essa colocação de Francisco nos introduz numa esplêndida verdade, que logo a seguir ele enunciará, Nesse importante encontro do Pontífice com o mundo todo, ele não empregará, uma só vez, o vocábulo Papa, mas sempre dirá “bispo de Roma” (“comunidade diocesana de Roma”, “o bispo emérito Bento XVI”, “Bispo e povo”, “o meu Cardeal Vigário”, “antes de o Bispo abençoar”, “a bênção para o seu Bispo”.

...da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as Igrejas na caridade.
A esta altura, Francisco vai buscar a definição da Igreja de Roma na fonte cristalina da Igreja indivisa, pois é Santo Inácio de Antioquia (por volta do ano 110), que, em sua Carta aos Romanos, lhe dá o título de “presidente da caridade” (prokatheméne tês agápes), preeminência no amor. Nossos irmãos separados, sobretudo os ortodoxos, anseiam por essa Igreja de Roma presidindo na caridade, como podemos ver por este texto do Catecismo Ortodoxo “Dieu est vivant”(*): “O conjunto das Igrejas de uma região determinada, reunidas em torno dos Bispos dessa região, chama-se “Igreja local”. As Igrejas locais são todas irmãs. Entre elas, a de Roma tinha recebido a missão, nos diz Santo Inácio de Antioquia, de “presidir no amor” todas as outras. Desde a separação, que foi progressivamente crescendo, entre a Igreja de Roma e as de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, a Igreja de Constantinopla – a “nova Roma” – é que tem o seu papel, “à espera do dia em que Roma, de novo, retome o lugar que lhe compete na sinfonia das igrejas irmãs” (o grifo é nosso). E continua o Catecismo: “Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja de Roma começou a redescobrir a Igreja local em sua plenitude. Assim, o papel da Igreja de Roma e de seu Bispo se traduz em termos de primazia de amor e não de jurisdição no sentido estrito”.
Vemos que Francisco usou a expressão de Inácio de Antioquia, nessa sua primeira mensagem, dando um passo gigantesco no ecumenismo, o que deve ter dado aos ortodoxos uma imensa alegria... e também a nós!

É ainda esplêndido ouvir o Papa Francisco pedir ao seu povo que reze ao Senhor para que o abençoe; “é a oração do povo pedindo a bênção para o seu Bispo”, numa comunhão de orações, que lembra, mais uma vez, a Igreja primitiva.

Agora, dar-vos-ei a Bênção, a vós e a todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade. Mais uma surpresa: não é dito expressamente “ a Bênção Urbi et Orbi”, mas a todos os homens e mulheres de boa vontade.
Como era de se esperar, volta, na despedida, o ‘boa noite” e o desejo de um “bom descanso”, acolhido com sorrisos.

Posteriormente, dando a conhecer sua escolha de Francisco de Assis como patrono, o Papa testemunha que continuará sua vida, a exemplo do Poverello, com a Dama Pobreza, acrescido do empenho com a ecologia, cujo patrono é também Francisco de Assis. A esse Francisco que o Espírito Santo nos deu, sentimos também ecoar o pedido do Cristo, na igreja de São Damião: “Francisco, vai e restaura a minha casa”.(**)


(*) Dieu est vivant – Catéchisme pour les familles (par une equipe de Chrétiens orthodoxes , Les Editions du Cerf, 1980, pg.344-345.
Não nos escapam as dificuldades do diálogo ecumênico, mas as confiamos aos teólogos que buscam a Verdade plena, sob o sopro do Espírito Santo. “Unidos ao Senhor, vamos para diante, a bem da Igreja e do mundo”, disse o nosso amado Bento XVI e, agora, com Francisco, caminhamos, não mais “contra toda a esperança”, mas de esperança em esperança, para a “consumação na unidade”.

(** Legenda Maior, Vida de São Francisco de Assis - São Boaventura ,cap.II, 1: “...A igreja a que a visão se referia era aquela que Cristo resgatara com o próprio sangue.O Espírito Santo mais tarde lho revelou...”