Publicada no dia 10/08/2014
ENTRADA NO NOVICIADO - OBLATOS
Caríssimos irmãos e irmãs,

Como acabamos de ouvir na liturgia da Palavra, São Bento inicia a Santa Regra com essa palavra tão rica de sentido e significado: ESCUTA (filho os preceitos do Mestre).
Na Bíblia, o homem é aquele que vive na presença do Absoluto. O homem pode encontrar e conhecer a Deus, porque primeiro Deus conhece e encontra o homem. Temos assim o exemplo de Abraão, Moisés, Jacó, Isaac, Davi, João Batista, Maria, os discípulos... A escuta é, portanto, a atitude mais importante para quem quer ouvir a voz de Deus, através das Sagradas Escrituras, e fazer a Sua Vontade.
São Bento nos ensina, assim, que o monge á aquele que escuta (obsculta) e obedece (audire-obaudire). A escuta passa a ser, então, o caminho de volta para Deus.
Nossa vida é uma peregrinação aqui nesta terra, para esse encontro com o Senhor. Daí ser tão importante fazermos tudo da melhor forma e maneira. Parafraseando um texto antigo sobre a Missa encontrado numa sacristia:
“Fazer tudo como se fosse a primeira vez,
a única vez
a última vez”.
Este aspecto está sempre muito presente em São Bento através do temor de Deus; da sobrenaturalidade em relação às pessoas, ofícios, objetos; de ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreender-nos; e em outras palavras, viver intensamente e tão somente o momento presente. Diria até mais: celebrar o HOJE que nos é dado cada dia, cada minuto, cada segundo.
Portanto, queridos irmãos e irmãs, esse procurar a Deus é ao mesmo tempo encontrá-lo em todos e em todas as coisas. Como ouvimos, Deus, primeiramente, nos mostra o caminho da vida (RB Pról.20) e, então, podemos correr para encontrá-lo e com Ele permanecermos.
Um segundo aspecto que eu gostaria de ressaltar é o do serviço. A escuta da Palavra nos leva a servir. Viver o axioma “amar é servir”, “servir é amar”, vem confirmar o desejo que São Bento tem de que o Mosteiro seja a “escola do serviço do Senhor”. O serviço feito nessa escola é um serviço prestado com alegria, com generosidade, com amor, em presença do Senhor.
Um terceiro aspecto a salientar é que o louvor é o segredo de tudo na nossa vida; por isso, como nos ensina São Paulo, “por tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito, em Cristo Jesus” (1Ts 5,18), confirmando, assim, que eu não preciso entender para agradecer. Deus sabe e conhece tudo.
Vocês, hoje, queridas Vilma, Carla e Marli, são chamadas a seguir o Senhor mais de perto. São chamadas a dar testemunho dessa busca de Deus, manifestada através do serviço por amor, com amor e alegria, e de experimentarem “como o Senhor é Bom”.
Acabamos de ouvir, também, o belíssimo Salmo 22: “O Senhor é o Pastor que me conduz, não me falta coisa alguma”. É esse Pastor que buscamos de dia e de noite, que amamos e que servimos. É Ele o Bom Pastor que nos conduz, nos conhece e nos ama; que dá a vida por cada um de nós.
Que essa celebração da entrada para o noviciado inunde de graças o coração de cada uma de vocês, para que escutando e seguindo, continuamente, o Bom Pastor, nada preferindo ao Seu amor, possam glorificá-lo com a sua vida – conduzindo muitos até Ele.
É comum as pessoas perguntarem o que significa ser oblato beneditino.
O Oblato Beneditino é o cristão (leigo ou sacerdote) que, chamado por Deus, procura viver coerentemente o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia dentro do espírito da Regra de São Bento.
Após a oblação são membros da família monástica do respectivo mosteiro, participando dos bens espirituais da comunidade, e na medida do possível acompanham a vida do mosteiro. Eles são chamados a viver a conversão dos costumes, cultivando a sobriedade e a simplicidade; a uma vida de oração de união com Deus, através da Celebração Eucarística e da recitação do Ofício Divino. Essa atitude deverá repercutir em seus deveres, impregnando do espírito evangélico as estruturas desse mundo: trabalho, família, círculos de amizade; para que em tudo seja Deus glorificado. Ao oblato cabe assumir no mundo sua vocação apostólica e contemplativa, “nada preferindo ao amor de Cristo” (RB 4,21).
Podemos ainda dizer que o oblato beneditino vive a espiritualidade beneditina, considerando os elementos evangélicos mais inculcados por São Bento, vividos no cotidiano. Esses elementos são: humildade, silêncio, obediência, oração, de modo particular a Liturgia das Horas e a lectio divina, o sentido pascal da vida, a paz, a discrição, o trabalho, a condenação da murmuração, o cuidado com os doentes, a pontualidade, a hospitalidade, o amor para com os pobres, os peregrinos, os idosos e as crianças.
Que vocês possam, confiando no Senhor, o Bom Pastor, não terem medo da agitação das ondas do mar desse mundo, e com o olhar fito no Senhor, experimentarem, cada dia a força do seu braço e a ternura do seu amor.
Sendo, hoje, 10 de agosto, eu não poderia deixar de mencionar o santo desse dia: São Lourenço, diácono e mártir, do início do cristianismo, martirizado no ano 258, portanto, séc. III. Conta-se que ele, tendo sido aprisionado com o Papa Sisto II, não teria sido logo martirizado, pois os perseguidores esperavam arrancar-lhe os bens da comunidade cristã. São Lourenço então declarou-lhes que a única riqueza que possuía eram os pobres a ele confiados pela Igreja. E assim, foi queimado vivo. Esse grande santo nos ensina que devemos estar sempre atentos a acolher os pobres, não somente os de pobreza material, mas todos que nos procuram: os pobres de Deus, os pobres de fé, de esperança, de caridade. Termos um coração acolhedor. E é isso que Deus pede a vocês, Vilma, Carla e Marli, de modo muito especial.
Hoje, também, era a o aniversário da profissão e consagração de uma de nossas monjas fundadoras, nossa Ir. Paulina, que gostava muito dessa festa de São Lourenço. Ela certamente está radiante, na glória do Pai, vendo vocês iniciarem o seu noviciado para a oblação no dia de hoje!
Ao terminar, não podemos deixar de mencionar o exemplo da Virgem Maria. Ela que nos ensina a acolher a Palavra de Deus, a sermos disponíveis ao Senhor, a colocarmos o Cristo no centro de nossas vidas. Que ela interceda por cada um de nós com seu amor materno. Amém!
Ir.Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb