Publicada no dia 10/02/2015
ALOCUÇÃO NA ENTRADA DO NOVICIADO DA POSTULANTE TAMIRES BARBOSA PEREIRA
Querida Madre Regina, queridas Irmãs, querida Tamires e nossa querida Madre Dorotéia, sempre unida a nós de sua cela,
PAX!
Hoje temos a alegria de celebrarmos o rito de iniciação na vida monástica, de nossa postulante Tamires, nessa Solenidade de Santa Escolástica. Acabamos de ouvir essa bela passagem da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, conhecida como “Hino à caridade” (1Cor 13). Que programa de vida para nós e porque não dizer para todos os cristãos!
“Ainda que eu tivesse o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência...ainda que tivesse toda a fé...se não tivesse a caridade isso nada me adiantaria. A caridade é paciente, é prestativa...tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais passará!”
Como não unirmos essa passagem com a Solenidade que hoje celebramos de Santa Escolástica?
O que nos deve impulsionar cada dia na vida monástica é o que nos impulsionou a responder o chamado de Deus: o amor. Devemos sempre estar enamoradas de Deus, apaixonadas por Cristo e por seu Reino, para contemplar o Senhor, um dia, face a face. Como o salmista podemos cantar: “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando o verei face a face?” (Sl 41).
Temos na Solenidade de hoje um belo testemunho desse viver o amor. Faço aqui algumas pinceladas desse belo e último encontro de nosso Pai São Bento com Santa Escolástica.
Após uma série de capítulos que narram os milagres do homem de Deus, no cap. XXXIII o milagre se dá por meio de sua irmã, com a vontade de Deus. Para São Bento, a contemplação é fruto de uma vida. É o seu coroamento. Sabemos do episódio a que esse milagre se refere. Sabemos que quando São Bento viu que não poderia retomar ao seu mosteiro naquela noite “queixou-se amargamente”, dizendo: “Deus te perdoe, irmã! Que fizeste? Pergunta que foi respondida simplesmente: “Eu te pedi e não me quiseste ouvir. Pedi ao meu Senhor e Ele me ouviu”.
Tiramos desse relato o ensinamento de que as leis, as normas, as regras, nunca podem ser maiores que o amor. Às vezes fazemos “leis em nós” e nos fechamos àquilo que é o essencial. Para São Bento a chuva que o impede de retornar ao Mosteiro é uma contrariedade. Seu poder que parece ilimitado, pela primeira vez fracassa. Com tal fracasso São Bento encerra a carreira de taumaturgo.
Na verdade o encontro com sua irmã é uma lição de humildade, para aquele que desde jovem foi agraciado por Deus. À semelhança de São Paulo, Bento quis algo e não obteve. Quem obteve a graça de Deus foi Escolástica. Nela se manifesta o poder da oração e a liberdade de Deus diante daquele que suplica. São Paulo rogou e não foi atendido...São Bento desejou e não foi atendido. Depois de tantos prodígios, o homem de Deus é suplantado por sua irmã, aparentemente caprichosa e desrespeitosa da disciplina monástica.
Nada sabemos de Escolástica além das informações deste capítulo e ao que se segue. Mas fica-nos o maior de todos os ensinamentos e ao qual São Bento também chegou ao fim da vida, como nos deixou nos últimos capítulos da Regra. A observância pela observância da Regra não é tudo. É válida e necessária quando nos leva à prática do amor. E se a Regra em sua observância nos leva ao amor, este só será verdadeiro se formos livres diante da observância da mesma, quando as circunstâncias exigirem. Se não houver verdadeira liberdade, não há verdadeiro amor. Mas só pode dizer isso, quem de fato sabe o que é observar a Regra.
São Gregório atribui a Santa Escolástica a vitória de ser atendida em suas preces, por “ter amado mais” (1 Jo 4,8.16). “Era justo ter mais poder quem mais amava”. Essa frase nos recorda uma passagem do Evangelho: o episódio do fariseu e da pecadora (Lc 7,36-47): “Foi-lhe perdoado seus muitos pecados, porque mostrou muito amor”. “A caridade jamais passará” (1Cor 13,8). “Mesmo permanecendo a fé, a esperança e a caridade; a maior delas, porém, é a caridade” (1 Cor 13,13).
Esse belo episódio de Bento e Escolástica, relembrado, hoje, na Solenidade desta Santa, nos faz tirar essa grande lição para a nossa vida monástica. Lição de humildade, da supremacia do amor, da simplicidade e da pureza, que a imagem da pomba, que representa a alma de Escolástica, três dias depois voando para o céu, evoca. Sim, minhas irmãs, “o amor é mais forte que a morte” (Ct 8,6).
O tempo do noviciado que você hoje inicia, querida Tamires, é o tempo de formação que se destina a introduzir no conhecimento e na prática da vida monástica vivida no mosteiro. O mosteiro como escola do serviço do Senhor nos ensina cada dia a conhecer, amar e seguir a Jesus. Essa é a graça que se pede e que se pretende alcançar do Senhor nesse tempo que lhe é dado. Trata-se de um conhecimento, cheio de admiração pela beleza da pessoa de Jesus, suas palavras e gestos, que desperta o amor, o qual, por sua vez, leva a desejar conhecê-lo ainda mais intimamente, numa circularidade espontânea, que vai produzindo uma identificação crescente com Jesus, no seu Espírito de amor. O objetivo último de seguir a Jesus na vida monástica não consiste senão em viver cada vez mais intensamente a sua vida, na situação concreta de cada uma, segundo as palavras do apóstolo Paulo: “Vivo, mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
O hábito que você, hoje, recebe, tem o sentido de ser revestida de Cristo, cujo fardo é leve e o jugo suave. O que se passará no exterior deverá aos poucos ser a realidade do interior. Revestir-se de Cristo, no dizer de São Bento é “nada antepor ao seu amor”, e ainda acrescenta: nada, absolutamente nada anteponham ao Cristo (RB 72,11).
Falamos de caridade, de amor. O efeito mais visível da caridade é a alegria. Não como uma simples alegria ou satisfação humana, mas como uma alegria que pode coexistir com sofrimentos e insucessos humanos.
O nosso Papa Francisco tem insistido muito em todas as suas colocações de que não podemos deixar que nos tirem duas coisas de nossa vida: o Evangelho e a alegria!
Gosto muito de uma passagem da vida de um santo muito conhecido e amado por todo o mundo, e também, de modo especial pelo nosso Papa!
Conta-se na vida de São Francisco que ele chamou o Frei Leão e lhe disse: “Escreve o que é a verdadeira alegria”. Esta não consistiria em que todos os mestres de Paris entrassem na Ordem franciscana... e se todos os irmãos convertessem os infiéis para a fé...” digo-te que, em tudo isso não está a verdadeira alegria”. Mas, o que é a verdadeira alegria?
“Eis que voltamos de Perugia no meio de uma noite de inverno... Todo envolvidos na lama, no frio e no gelo, chegamos à porta do convento e depois de batermos por muito tempo, vem o porteiro e pergunta: “Quem são vocês”? E nós dissermos: “Somos dois dos vossos irmãos” e ele disser: O que vocês são? São dois vagabundos, que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui ““! E não nos abrir e nos deixar expostos à neve e à chuva, com frio e fome. E, se ainda batermos mais e chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus, com lágrimas, que nos deixe entrar, e se ele sair com um bastão e nos atirar ao chão e nos bater...: Se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo, ó irmão Leão, escreve que nisso está a perfeita alegria. Porque acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, está o de vencer-se a si mesmo e voluntariamente suportar, por amor, trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos”.
A alegria é a vocação de todo ser humano, que nos faz experimentar a paz de Deus que supera todo entendimento. É puro dom e graça de Deus que devemos, sim, pedir ao Senhor, com insistentes orações e pureza do coração.
Quando chegamos ao fim dos degraus da escada da humildade, nos deparamos com o duodécimo degrau que é a transformação do monge todo que opera como uma unidade; liberta do temor e conduz ao amor de Deus.
Que sua vida, querida Tamires, possa ser assim: simples, humilde, despojada, silenciosa, vivendo com alegria a caridade de cada dia; servindo com amor nessa Escola do serviço do Senhor, suspirando, pela face de Deus.

Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb