Publicada no dia 26/06/2015
“PARA QUE TODOS SEJAM UM,
COMO NÓS PAI SOMOS UM” (Jo 17,11)

Minhas queridas Irmãs,

Não poderia deixar, hoje, de falar sobre a páscoa de nossa querida Madre Dorotéia! Porque a morte é o momento mais importante de nossa existência terrena. É a porta de ingresso para a eternidade. E não é sem motivo que S.Bento coloca como dois dos instrumentos das boas obras: “Desejar a vida eterna com todo o ardor espiritual”; e “ter diariamente a morte diante dos olhos. ” Tudo que fazemos nos leva a esse dia derradeiro em que entregaremos toda a nossa existência ao Senhor que nos criou.
É sempre muito difícil falarmos de alguém tão querido, e de modo especial de nossa Madre Dorotéia, porque sabemos que sem ela certamente não existiria o nosso mosteiro.
Simples e profunda; criativa e metódica; terna e exigente; determinada e ponderada; humilde e verdadeira; próxima e solene; humana e sobrenatural; sensível e forte; misericordiosa e justa; habilidosa e prática; sempre disponível a servir, era um modelo de vida de oração e de vida fraterna. Não conseguia muito esconder sua primeira impressão sobre as coisas e quando dizia: “é interessante”... já sabíamos que bonito não estava!
Naquele domingo, dia 7 de junho, tínhamos ouvido aquele belo Evangelho em que Jesus tinha sido interpelado de que sua mãe e seus irmãos estavam lá fora o procurando. E o que Ele lhes respondeu? “Quem é minha mãe e meus irmãos? ” Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a Vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”!
Não podemos ter dúvidas, vendo a vida de nossa Madre Dorotéia, de que sempre, sempre, ela procurou conhecer e fazer a Vontade de Deus. Desde pequena, até sua entrada na Abadia de Santa Maria, sua ida para a Argentina, sua vinda para Itapecerica da Serra, e em sua vida de abadessa e agora no final de seus anos, aceitando todos os limites de seu corpo.
Vem quase como um refrão aquela frase, escolhida por ela, para celebrar seus 60 anos de profissão: “Soli Deo placere desiderans” (Desejo de agradar somente a Deus).
Entre nós tem quem a conhecia desde que nasceu, como é o caso de nossa Ir. Maria Beatriz, das que conviveram com ela como Irmã, ainda em Santa Maria, de tantas que a conheceram e a tiveram aqui como Prioresa, Mestra e Abadessa, como Abadessa Emérita, e como enferma, durante os seus últimos anos. Eu, porém, tive um privilégio: De tê-la como filha primogênita!
Partilharei somente algumas coisas desse relacionamento tão verdadeiro e tão sobrenatural que tivemos. O começo foi difícil como era de se imaginar...vê-la inclinada diante de mim, no dia 16 de abril de 1998, prometendo obediência nas minhas mãos, a mim, que tinha prometido obediência nas suas mãos, foi uma das provas mais difíceis da minha vida. Só pela fé, só por acreditar no plano de amor de Deus, só por crer que nossa vida é uma “vida escondida com Cristo em Deus”, que tudo faz sentido.
Dela sempre recebi todo o apoio, todo o incentivo, seus preciosos conselhos, sempre respeitando à minha maneira de ser, sem nada querer impor ou dirigir, mas um desejo imenso de ainda colaborar nessa obra de salvação. Seu único desejo era sempre de servir com amor. Lema esse abacial que tanto ela viveu. E não é fácil servir e amar! Ela viveu aquele belo pensamento de Saint-Exupéry: “Todo ato é oração se é dom de si”. E assim, ela se deixou ser consumada dia a dia.
Dela recebi muitos cartões, mensagens, textos copiados, e gostava imensamente quando esses eram assinados no final: “de sua ovelhinha”...como isso foi verdadeiro e vivido!
Nos últimos anos, antes de ela adoecer mais gravemente, pedi que ela escrevesse cada dia num caderninho para mim, como um caderno de conselhos e boas palavras. Ela escreveu muito pouco, porque já não tinha muito mais força para isso, mas o que ela escreveu me parece precioso:

“O amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte” (Saint Exupéry);
“A hora mais escura é a que vem antes do sol nascer” (Prov. Espanhol);
“O preço da perfeição é a prática constante” (Dale Carnegie);
“Quem ama acredita no impossível” (Browning);
E há um tempo atrás:
“Quando se pode amar e sofrer, pode-se o mais que se é possível fazer sobre a terra”;
“Cristo! Hoje só tenho isto para te oferecer: a minha necessidade de Ti! ” João Mohama;

“Aquele que nos chama veio a este mundo. Escolheu um madeiro para nos fazer atravessar o mar: sim, ninguém pode atravessar o oceano do século a não ser levado pela Cruz do Cristo. Até um cego pode abraçar esta cruz!
Se não vês bem para onde vais, não a largues; ela mesma te conduzirá.!
Santo Agostinho
E do mesmo autor: “Queres ser santo? Faze-te mendigo de Deus”.
E ainda, certamente para me animar: “ Na direção das almas é preciso uma taça de ciência, um barril de prudência e um oceano de paciência” S. Francisco de Sales.

Sei que cada uma de nós poderia enfocar um lado de nossa Madre Dorotéia, mas que teria sempre um determinador comum. Ela era uma mulher de fé profunda, de união intensa com Deus, de vida de oração profunda, de visão sobrenatural e era profundamente humana, como é próprio da santidade verdadeira.
Sem dúvida ela nos deixou um belo legado e que ela nos diria hoje “toca para frente”; expressão tão dela e que mostrava o dinamismo de sua vida e de como ela se confiava ao Senhor.

Hoje só podemos agradecer seu belo testemunho e exemplo de vida. Quanta graça para nós termos podido conviver com ela, ter bebido de seus ensinamentos, vistos os seus exemplos.

Sua partida foi também tranquila e serena. Ainda me lembro daquele momento derradeiro em que queremos e não queremos que aconteça e as palavras que sem dúvida o Senhor colocou em meus lábios:
“Madre, esse é o momento mais importante da sua vida; aquele para o qual Deus a preparou desde sempre. É o Esposo que está perto; o Esposo da sua vida. É o dia do seu encontro com Ele. Parte em paz. Tudo está consumado e a senhora já deu toda a sua vida por nós. Cumpriu a sua missão. Obrigada por tudo! ” E assim a abençoei. Depois desse momento comecei a avisar à todas vocês. Que beleza ter sido num domingo, dia do Senhor, antes das Vésperas. Era aquele dia preparado desde toda a eternidade para ela e para nós. Temos a impressão de que quando alguém querido parte para o Céu, um pouco de nós vai com ele e muito dele fica conosco. Penso que com Madre Dorotéia não será diferente. Ela já está lá a postos, fazendo os seus milagres...intercedendo por nós, por nossas necessidades mais concretas e mais espirituais. Recorramos a ela como intercessora e não seremos confundidas! E como não vermos a mão dela em todas as coisas surpreendentes que nos aconteceram essa semana?
Como nos disse o Cardeal Journet: “Se Deus nos tira um a um os nossos amigos, é para fazer deles as estrelas de nossa esperança e de nosso céu”.

Mais uma vez desejo agradecer por tudo que cada uma fez por ela, para aliviar seus sofrimentos, para fazer-lhe companhia, para alegra-la, servi-la, ama-la. Que Deus mesmo seja a recompensa de cada uma, de modo especial, aquelas Irmãs que a serviam dia e noite com tanta solicitude e amor.
“E se queremos chegar à vida eterna, enquanto é tempo, e ainda estamos neste corpo e é possível realizar todas essas coisas no decorrer desta vida deluz, cumpre correr e agir, agora, de forma que nos aproveite para sempre” (Pr 42)
“O que olhos não viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam” (RB 4,78).
“Que nada absolutamente anteponhamos a Cristo – que nos conduza juntas para a vida eterna”, juntamente com nossas Irmãs que nos antecederam na vida monástica. Amém!


Ir. Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB