Publicada no dia 12/10/2015
ALOCUÇÃO NA ENTRADA DO NOVICIADO DA POSTULANTE WILMA LOPES DO NASCIMENTO
Querida Madre Regina, queridas Irmãs, querida Wilma Hoje é, sem dúvida, um dia muito especial para a nossa Igreja do Brasil, para o nosso povo, para cada uma de nós. Celebramos a Solenidade de Nossa Senhora Aparecida e com ela desejamos caminhar ao encontro do Senhor. Neste ano, essa Solenidade se reveste de uma beleza ainda mais especial no ano dedicado à vida consagrada. Quem como Maria viveu em plenitude essa dimensão de entrega a Deus, na obediência, na pobreza e na pureza? Temos, hoje, a alegria de nos reunirmos para esse rito da entrada no noviciado de nossa querida postulante Wilma, após esse ano de caminhada nessa Escola do Serviço do Senhor; e temos a alegria da presença da Danúbia que aqui faz o seu tempo de experiência. Acabamos de ouvir esse trecho da Escritura tão belo e profundo Eclo 2, 1-6, intitulado, “o temor de Deus na provação”: “Meu filho, se te ofereceres para servir o Senhor, prepara-te para a prova. Endireita teu coração e sê constante”...que lembra para nós o “Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração”. “Sê paciente, pois o ouro se prova no fogo e os eleitos, no cadinho da humilhação”..., “mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, não fujas logo do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início...participemos pela paciência ”. “Confia no Senhor, ele te ajudará, e espera nele”. “Colocar toda a esperança em Deus”. A beleza de nossa vida monástica está neste dinamismo da busca do Senhor, nesse caminhar incessante à procura da Face de Deus. Toda vocação é um chamado da parte de Deus, que nos concede a graça dessa resposta que é a entrega de nossa vida a Ele. São Bento no capítulo 58 expressa numa única frase todo o sentido de nossa vida monástica: “Si revera Deum quaerit”: se verdadeiramente procura a Deus. Procurar a Deus é a questão decisiva de toda a nossa vida. O elemento tão substancialmente monástico de verdadeira procura de Deus vai revelar-se concretamente, indisfarçavelmente através de uma visível solicitude pela procura das coisas que são de Deus dentro do quadro especificamente próprio da vida monástica como ela é vivida naquela “conversatio”. Trata-se da solicitude para com o Ofício Divino, isto é a oração coral dos monges com que eles dividem e santificam em determinadas horas o seu dia e noite, a fim de que nada se lhe anteponha. A vida nova que a noviça é chamada a viver é a solicitude em obedecer: à Regra e à Abadessa; solicitude para aceitar os opróbrios: a tudo que deve ser feito ou que deve ser assumido e que seja difícil, árduo de carregar. Tudo o que há de difícil no dia a dia da simples vida e que é impossível enumerar; para com tudo isso deve ser apresentada uma solicitude tranquila e alegre de quem sabe que, também através disso, se procura e se encontra a Deus. São Bento, ao escrever este trecho da Regra é como se acompanhasse, interessado, atento, participante, o difícil processo de amadurecimento de uma decisão. Acabamos de ouvir, também, o canto do belo salmo 62 como uma resposta a esse chamado: “Desde a aurora Vos procuro, a minha alma tem sede de Vós. Assim Vos bendirei toda a minha vida”. Sim, querida Wilma, é nesse caminho estreito da vida monástica que somos conduzidas cada dia para a verdadeira Vida; é nessa Escola do Serviço do Senhor, que aprendemos no ordinário do nosso cotidiano a amar, servir e adorar esse Deus que nos chamou, nos congregou, nos uniu e nos consuma na unidade. Esse salmo de louvor a Igreja, Esposa de Cristo, continuamente impelida pelo Espírito “que sopra onde quer” e a exemplo dos seus santos e santas, faz a mesma experiência de oração. Feliz daquele que anseia por Deus como a terra seca deseja receber a chuva. Um dia será saciado no reino dos céus, para o qual foi criado. Feliz daquele que tem sede ardente de Deus desde a hora em que, na manhã do primeiro dia da semana, Cristo ressuscitou dos mortos. A vocação monástica é uma reposta a um chamado, em que precisamos deixar algo para podermos mais livremente abraçar o que nos será dado. O seguimento de Jesus está estritamente ligado a esse deixar: deixar a terra, a casa paterna; deixar o barco; as redes; a profissão; uma comunidade de vida; um futuro; os seus próprios planos. No dia de hoje, não poderia haver melhor exemplo de seguidora que o de Maria. Ela viveu um encontro marcante que mudou totalmente a sua vida. O anúncio a Maria é o arquétipo de cada vocação. Hoje, celebrando Nossa Senhora Aparecida, a Virgem da fé, podemos ressaltar que Maria é aquela que viveu radicalmente a espera do Messias. E, uma vez vindo, nascido dela, vive radicalmente a boa nova pregada pelo Filho. Maria jamais fez projetos, jamais pretendeu ter uma vida própria. Nem mesmo fez valer alguma função particular. Os evangelhos são concordes em no-la mostrar no escondimento de Nazaré, extremamente discreta nas relações com o Filho e na sua obra. Todavia, sempre capaz de responder humildemente a seu respeito diante do imprevisto da novidade que irrompe na sua vida. Maria é Mãe do Senhor não só por tê-lo gerado fisicamente, mas por ser aquela que faz a vontade do Pai. Por sua radical obediência Maria está ainda presente ao pé da cruz, pronta a vir a ser a Mãe universal dos discípulos. No Evangelho de hoje, ouviremos a bela passagem das Bodas de Caná, o primeiro milagre, o início da vida pública de Jesus. As bodas evocam a Aliança de Deus com o seu povo. Aliança passada (Noé, Abraão, Moisés) e reiterada ao longo da história e a Aliança nova e definitiva em Jesus. Refleti sobre o aspecto de que onde se encontra Maria, encontra-se a abundância das graças de Deus. Hoje teremos a transformação da água em vinho; o vinho, símbolo da alegria e da prosperidade, oferecido por Jesus é melhor do que o primeiro. Uma quantidade abundante. Interessante, notar, também, que quando os pescadores encontraram a imagem de Nossa Senhora Aparecida, eles tiveram uma pesca abundante...e o que dizer das diárias multidões de fiéis em procissão em Lourdes, Fátima? Sim, quando Maria está presente tudo é abundante! A Virgem Maria sabe olhar à sua volta e vive as urgências do quotidiano, ciente de que o que recebe do Filho como dom, é um dom para todos. Ela ensina a não ser alheios espectadores de uma Palavra de vida, mas a tornar-se participantes, deixando-se guiar pelo Espírito Santo que habita no crente. Ela glorifica o Senhor, ao descobrir na sua vida a misericórdia de Deus, que a faz “bem-aventurada”, porque “acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1,45). Convida, além disso, todo o crente a fazer próprias as palavras de Jesus: “Felizes os que acreditam sem ter visto” (Jo 20,29). Maria é a imagem do verdadeiro orante da Palavra, que sabe guardar com amor a Palavra de Deus, transformando-a em serviço de caridade, memória permanente, para manter acesa a lâmpada da fé no quotidiano da existência. Diz Santo Ambrósio que todo cristão que crê concebe e gera o Verbo de Deus. Nós, como Maria, não sabemos sob qual cruz nos conduzirá a vocação que recebemos, que acolhemos e que depois escolhemos. Como Maria, devemos ter, porém, a certeza de ter encontrado graça e benevolência junto de Deus. Assim estaremos em grau de aceitar a novidade que nossa vida traz consigo. Se como Maria soubermos repetir sempre “Eis a serva do Senhor”, sentiremos também nós a palavra de consolo do Senhor: “Não temas”. O abandono em Deus que opera maravilhas em nós conduzir-nos-á ao amor que afasta o temor (1 Jo 4, 18). Esse amor far-nos-á viver radicalmente o evangelho, contando unicamente com Deus e com os irmãos e irmãs. Eles são realmente tais porque fazem a vontade do Senhor e são a sua família. A fé viva, pelo contrário, não nos permite repousar. Por ser essencialmente amor, obriga-nos a esforços contrários e a novos sacrifícios. A lei do Evangelho é constante: quem guarda o seu tesouro para si o perderá; só se enriquece aquele que dá. Difundamos nossa fé pelo exemplo da nossa vida, tanto como pela convicção das nossas palavras: ao mesmo tempo, ela se fortificará em nós mesmas. Vivamos, queridas Irmãs, querida Wilma, essa imensa graça da vocação monástica, procurando o Senhor no meio da noite, sem medo e sem temor, mesmo que não o reconheçamos algumas vezes, permaneçamos ao lado de Jesus, seguindo os seus passos, ainda que esses nos levem a Cruz; conduzindo a Ele todos aqueles que de nós se aproximam; e não tenhamos medo de entregarmos nossa vida a Ele e por Ele darmos a nossa vida. Que você possa sempre escutar o Senhor que lhe chama pelo nome e reconhecer, na voz que escuta, a voz de Jesus, não olhando mais para trás, mas sim em direção à vida e poder assim “ver” o Senhor, o Vivente e participar da sua alegria e da sua paz. Querida Wilma, que você, hoje, revestida do hábito monástico e de tantas graças, possa cumprir cada dia a missão que Deus lhe confiará de modo especial. Seja apontando, guiando ou conduzindo outros para o Senhor, anunciando a todos que o Senhor ressuscitou! Amém. Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb