Publicada no dia 25/02/2017
ALOCUÇÃO NA ENTRADA DO NOVICIADO DA POSTULANTE LUANA BASTIANEL BIBERG
Querida Madre Regina, minhas queridas Irmãs, querida Luana

É com grande alegria que nos reunimos aqui para celebrar o rito de iniciação à vida monástica de nossa querida postulante Luana e temos também a alegria da presença da Leidiane entre nós, que aqui faz o seu tempo de experiência.

Não podemos de deixar de fazermos um memento às nossas queridas monjas fundadoras que já partiram para a Casa do Pai. Elas estão aqui conosco, e se unem à nossa alegria com o aumento da comunidade.
Acabamos de ouvir esse trecho tão curto do Evangelho de São Mateus, mas com um ensinamento tão forte: “Entrai pela porta estreita...é apertado o caminho que conduz à Vida” (Mt 7,13-14).
Podemos encontrar um eco desse trecho no Prólogo da Regra de São Bento, em que o Mestre faz o convite para quem quer a vida e deseja ver dias felizes, e aponta esse caminho que deve ser seguido. Um caminho que nos cumpre correr e agir, agora, de forma que nos aproveite para sempre. Esse caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início. No fim do Prólogo da Regra, São Bento nos anima e encoraja, quando afirma que com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor é percorrido o caminho dos mandamentos de Deus.

Como eu gosto de meditar sobre essa inenarrável doçura de amor... Fico pensando que se já é tão bom viver nessa Escola do serviço do Senhor, o que será mais para frente quando o coração já estiver totalmente dilatado... como é bom pensar nas doçuras do amor de Deus! Seria até um ótimo exercício para cada uma de nós: enumerar cada dia as doçuras de Deus! Aposto que o dia terminaria sem termos conseguido enumerar sequer a metade dessas doçuras.

Ouvimos, também, o canto do belo Salmo 138, tão significativo para a vida consagrada. “Senhor, tu me sondas e conheces... a tua mão direita que me sustenta... Vê se não ando por mau caminho e conduze-me pelo caminho da vida. Esse Salmo é uma meditação sobre a presença contínua de Deus, sobre a sua ciência que ninguém pode compreender, sobre o seu olhar que tudo penetra. Esse belo poema do salmista, termina por uma confissão do mistério dos desígnios de Deus, e uma prece para que conduza o seu autor pelo caminho da vida, da eternidade. É como o final do Prólogo em que São Bento nos aponta e exorta a merecermos ser coerdeiras do Reino de Cristo. É Ele o nosso Caminho, Verdade e Vida.

Celebramos, hoje, a memória de Nossa Senhora aos sábados, nesse Ano Mariano de 2017. Gostaria de salientar Maria como perfeita discípula da divina Palavra, e considerar como Maria contribui com a sua ação materna sobre alguns aspectos fundamentais da vida comunitária e como ela nos ajuda a percorrermos esse caminho.

Quem melhor do que Maria para nos ensinar a perscrutar essa Palavra que é o próprio Verbo de Deus? Ela que trouxe em suas entranhas a Palavra de Deus cumprida e realizada; que na verdade foi alimentada por essa Palavra; nutriu-se Dela; e depois de se tornar um com Ela, gerou essa Palavra para que se tornasse alimento para cada uma de nós. Por isso, no caminho de penetração do mistério da Palavra de Deus, Maria de Nazaré, a partir do acontecimento da Anunciação, torna-se mestra e mãe da Igreja e modelo vivo de todo o encontro pessoal e comunitário com a Palavra, que ela acolhe na fé, medita, interioriza e vive (1,38; 2; 19,51; At 17,11). Maria, com efeito, escutava e meditava nas Escrituras, associando-se às palavras de Jesus e aos acontecimentos que ia descobrindo na história. No tabernáculo do seio de Maria, Cristo morou nove meses; no tabernáculo da fé da Igreja, até o fim do mundo; no conhecimento e no amor da alma fiel, por toda a eternidade.

A Virgem Maria sabe olhar à sua volta e vive as urgências do cotidiano, ciente de que o que recebe do Filho como dom, é um dom para todos. Ela ensina a não sermos meramente espectadoras de uma Palavra de vida, mas a tornar-nos participantes, deixando-nos guiar pelo Espírito Santo que habita em quem crê. Ela glorifica o Senhor, ao descobrir na sua vida a misericórdia de Deus, que a faz “bem-aventurada”, porque “acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor” (Lc 1,45). Convida, além disso, todo o crente a fazer próprias as palavras de Jesus: “Felizes os que acreditam sem terem visto” (Jo 20,29). Maria é a imagem do verdadeiro orante da Palavra, que sabe guardar com amor a Palavra de Deus, transformando-a em serviço de caridade, memória permanente, para manter acesa a lâmpada da fé no cotidiano da existência. Diz Santo Ambrósio que “todo cristão que crê concebe e gera o Verbo de Deus”. Se há só uma Mãe de Cristo segundo a carne, já segundo a fé, Cristo é o fruto de todos.

A máxima realização da existência cristã como um viver trinitário de filho no Filho nos é dado na Virgem Maria que, através de sua fé e obediência à vontade de Deus, assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus, é a discípula mais perfeita do Senhor. Entrou plenamente no mistério da Aliança.

O tempo do noviciado que você, hoje, inicia, querida Luana, é o tempo de formação que se destina a introduzir no conhecimento e na prática da vida monástica vivida no mosteiro. O mosteiro como escola do serviço do Senhor nos ensina cada dia a conhecer, amar e seguir a Jesus. Essa é a graça que se pede e que se pretende alcançar do Senhor nesse tempo que é dado a você. Trata-se de um conhecimento, cheio de admiração pela beleza da pessoa de Jesus, suas palavras e gestos, que desperta o amor, o qual, por sua vez, leva a desejar conhecê-lo ainda mais intimamente, numa circularidade espontânea, que vai produzindo uma identificação crescente com Jesus, no seu Espírito de amor. O objetivo último de seguir a Jesus na vida monástica não consiste senão em viver cada vez mais intensamente a sua vida, na situação concreta de cada uma, segundo as palavras do apóstolo Paulo: “Vivo, mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

O hábito que você, hoje, recebe, tem o sentido de ser revestida de Cristo, cujo fardo é leve e o jugo suave. O que se passará no exterior deverá aos poucos ser a realidade do interior. Revestir-se de Cristo, no dizer de São Bento é “nada antepor ao seu amor”, e ainda acrescenta nada, absolutamente nada anteponham ao Cristo (RB 72,11). Deve ser o nosso mais profundo desejo: viver essa intimidade com Jesus. Esta relação pessoal autêntica com o Senhor permite perceber cada vez mais a sua presença ao nosso lado, no centro de nossa vida, de lhe agradecer e louvá-lo pelas manifestações de sua bondade e do poder de seu amor. Essa comunhão com ele vai tornando-se uma presença mais viva, uma experiência constante, mesmo no meio das tribulações próprias de seus servidores. Em todas as situações somos movidas a procurar o que mais lhe agrada, a perguntar o que ele deseja de nós, a pedir a luz e força de seu Espírito Santo para viver coerentemente o amor e o serviço. É o que podemos chamar de “sensus Christi” (o senso de Cristo) que é a percepção intuitiva de sua personalidade única, de seus critérios e atitudes, do que corresponde ao seu Espírito nas diversas circunstâncias, e que vemos com tanta beleza na vida de N.P. São Bento e de tantos santos, e de modo especial na Virgem Maria.

O nome novo que você receberá significará uma nova missão que lhe é confiada. Sim, o nome novo nos reveste de uma graça particular, pois sob a proteção do santo que trazemos em nosso nome, somos chamadas a viver uma missão especial, e de certa forma, nos assemelharmos a ele em nossa vida. Muitas vezes temos a graça, com o novo nome, de trazermos a memória, pessoas que também se tornaram santas com esse nome e que são muito queridas.
Aqui faço um paralelo que me veio nesses dias ao pensar que o dia 25 de fevereiro cairia, justamente, no sábado de Carnaval e que só o Senhor pode chamar uma jovem para abrir mão dessas alegrias passageiras do mundo para buscar as verdadeiras alegrias, que não passam:

Carnaval - Vestição
Fantasia - Veste de santidade
Música profana e hedonista – o cântico novo
Apelidos e nomes depreciativos e irônicos – um novo nome
Luzes artificiais e purpurinas – a lâmpada do Senhor para iluminar os passos.

É belo, assim, passar a vida fazendo o bem, como disseram sobre Jesus, nos Atos dos Apóstolos. Fazer o bem é deixar no mundo um rastro de amor, um perfume suave, como das rosas, mas que tem a capacidade de transformar todo o ambiente com sua fragrância, numa atmosfera agradável. Foi o que os santos fizeram, abraçando uma vida de austeridade, de mortificação, de abandono à Vontade de Deus; viveram um contínuo contato com o Senhor e por isso podiam exclamar: “Se os homens soubessem o que é viver em graça, não se assustariam com nenhum sofrimento e padeceriam de bom grado qualquer pena porque a graça é o fruto da paciência!
Querida Luana, um dia você escutou o Senhor que lhe dirigia essa pergunta que N.Pai São Bento colocou logo no início de sua Regra, no Prólogo: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes? ” E você está aqui, hoje, para lhe responder “eu”, e poder fazer essa experiência de conhecer verdadeiramente o Senhor, que lhe mostra o caminho da vida, dessa porta estreita, nessa escola de serviço do Senhor, onde se aprende a correr e agir, guiada pelo Evangelho, e a trilhar os seus caminhos. Caminhos que nos conduzem a verdadeira vida, ao verdadeiro amor.

Nome recebido: Irmã Rosa
Onomástico: 23 de agosto – Santa Rosa de Lima

Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb