Publicada no dia 21/10/2017
O ARTÍFICE DO BELO FOI ENCONTRAR-SE COM A ETERNA BELEZA
“ O artífice do belo foi encontrar-se com a eterna Beleza”
LÁpide do artista sacro Cláudio Pastro
(Ir. Martinho, obl. OSB)

Boa tarde a todos!
Agradeço ao D. João Batista Barbosa, monge aqui do Mosteiro de São Bento, o fraterno convite para participar nesse II Seminário de Cultura Beneditina, que esse ano tem como tema: “ Vida monástica: Itinerário de conversão na constante contemplação da eterna beleza”.
Nessa tarde teremos essa mesa redonda em que faremos a memória do artista sacro, Cláudio Pastro, oblato do nosso mosteiro com o nome de Irmão Martinho, que no último dia 19 completou 1 ano de sua páscoa. Após a minha colocação eu passarei a palavra ao Sr. Fernando Villafranca , que administra a Auto Focus Cinema e Vídeo e é produtor e diretor de vídeos empresariais há mais de 50 anos, escritor, tendo lançado os livros "Do Cinema ao Blu-Ray e 3D" e "Um Pintor Sem Nome", e há mais de 40 anos amigo do Cláudio Pastro, tendo realizado vários trabalhos para ele ao longo desses anos.

Essa bela frase “O artífice do belo foi encontrar-se com a eterna beleza”, de um autor desconhecido, foi escolhida por nós para a lápide de Cláudio, em nosso mosteiro, onde ele está sepultado, como tanto desejava.
Gostaria de iniciar essa partilha com uma citação do Livro dos Gênesis
(Gn 1,30):
Após a Criação de tudo que tinha sido criado:
“Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom”.
A mesma raiz do hebraico da palavra bom (Tob) é a de belo.
Portanto, Deus viu tudo o que tinha feito: e era belo!

O ser humano foi feito para contemplar esse belo criado por Deus. Ele é a Eterna beleza e o belo nos harmoniza, nos unifica e transcende.
Cláudio em sua arte sacra foi um servidor da beleza, que é Deus, do belo.
Dedicou-se mais de 40 anos à arte sacra, que ele fazia questão de diferenciar de arte religiosa, e seus livros nos ensinam e nos apontam para o Único necessário, que é Deus.
Gostaria de partilhar alguns fatos de sua vida talvez desconhecidos para muitos aqui presentes.
Nos últimos anos de sua vida ele encontrava-se quinzenalmente, em sua residência, com um grupo de pessoas, sedentas de Deus, a maior parte pertencentes ao Movimento Comunhão e Libertação (outros já não faziam mais parte do Movimento), para refletirem juntos, através da leitura de diversos livros, sobre as verdades da nossa fé. Assim leram o Catecismo da Igreja Católica, livros sobre Liturgia do Papa Emérito Bento XVI, a Regra de São Bento, etc.
Esse grupo que se formou espontaneamente, e no início era com encontros mensais, foi crescendo. Passou a encontros quinzenais e o grupo já era de 15, 20 pessoas. Conversando com um desses membros eu perguntei o que fez ela participar desses encontros, que eram às 6ª. feiras à noite, e ela me respondeu que fazia bem a ela ouvir alguém falar com tanto ardor, com tanta paixão sobre Nosso Senhor Jesus Cristo!
Sim, o Cláudio Pastro falava de Jesus como se fala de um amigo íntimo, bem conhecido. Era um apaixonado por Cristo!
Essa centralidade do Cristo na sua vida era a fonte de sua arte sacra. Pintou inúmeros “Pantocrators”, uns majestosos, outros mais ternos e misericordiosos e como uma estrela Cláudio sempre apontava para o Sol de nossas vidas, para Jesus.
Bebeu da fonte do Concílio Vaticano II, dos Padres da Igreja, de Romano Guardini, Odo Casel, Louis Boyer, Aemiliana Löhr e outros mestres da liturgia e da vida monástica, ocidentais e orientais.
Teve ao longo de sua vida encontros com pessoas que muito o marcaram e orientaram: Mère Saint Benoit (Collette Cattà), das Irmãzinhas da Assunção, Dom Francesco Ricci, do Comunhão e Libertação, nossa Madre Dorotéia Rondon Amarante, Madre Chantal, do Mosteiro do Encontro, Dom Abade Martinho Michler, do Mosteiro do Rio de Janeiro e precursor do Movimento Litúrgico, Padres Michel Cüenot e Jomar Vigneron, e tantos outros.

Bebeu sobretudo da Sagrada Escritura, pois como bom filho de N.P. São Bento, era fiel à sua lectio divina, tantas vezes feita no meio da noite, quando sua saúde o impedia de dormir.
Uma vez presenciei sua resposta à Moderadora internacional das Beneditinas, quando em visita ao Santuário de Aparecida (Sister Judith Ann Heble), em 2013, que lhe perguntara como ele podia conceber toda aquela obra grandiosa; e ele respondeu simplesmente, que muitas vezes durante à noite, ele acordava e aquilo que tinha lido nas Escrituras se transformava em imagem.
No dia do seu enterro, uma observação do pai de uma de nossas postulantes que passava uns dias em nosso mosteiro com a família me chamou a atenção. Ele dizia que o Cláudio tinha sido uma pessoa simples e humilde. Quando se perguntou porque essa afirmação, ele respondeu prontamente: “Porque se via na igreja durante a Missa de corpo presente, tanto pessoas de chinelo como de gravata”.
Sim, o que talvez muitos não tenham conhecimento é que o Cláudio precisou batalhar muito para caminhar na vida, para estudar, para conseguir se sustentar.
Ele morava com a família na Zona Leste (ele nasceu no Tatuapé). Sua mãe, D. Aloísia, que ainda vive e está com 94 anos, era modista e seu pai, já falecido, Sr. Gino, funcionário da Light.
Quando terminou o ensino secundário, quis cursar Belas Artes na Faculdade, mas seus pais não podiam pagar esses estudos. Por influência de amigos, escolheu Ciências Sociais na PUC, sofrendo muito por não poder fazer Artes. Para compensar, desenhava muito. Nessa ocasião, começou a admirar a Bíblia Pauperum, rica de imagens.
Para pagar a faculdade, dava aulas no pré-vestibular e madureza e caminhava tanto para economizar a condução que até furava seus sapatos, a ponto de seu pai lhe dizer ao presenteá-lo com um novo – que não ficava bem um professor dar aulas com o sapato furado.
Ter vivido essa realidade dura e exigente (por exemplo na infância, quando já era evidente seu talento para desenhar, a mãe dava o papel que se embrulhava o pão para que ele pudesse assim fazer seus desenhos), tudo isso o fez ser um homem muito humano e atento às necessidades dos mais pobres e carentes. Era tão generoso que não havia dúvidas de como o seu coração era maior do que ele mesmo.
Muitas vezes ao participar de alguma Celebração Eucarística Dominical em nosso Mosteiro, ele via que havia algum fiel parecia passar necessidade por estar vestido de uma forma muito precária e logo numa próxima vez ele trazia algumas de suas roupas para oferecer a essa pessoa. Vivia na prática o que fez o seu padroeiro de oblação, o Bispo São Martinho de Tours.
Era impressionante como ele dava a mesma atenção para uma pessoa simples como a uma pessoa letrada e importante. Todas as pessoas tinham literalmente o mesmo valor para ele.
Como filho de São Bento de coração e de vida de oblação, ele contemplava em cada ser humano aquele mesmo Cristo que ele estampou em tantas igrejas e capelas (+ de 350) pelo mundo.
Amante dos livros desde a juventude (quase 2.000 em sua biblioteca particular) sempre foi visto pelos irmãos sentado no sofá com um livro nas mãos. Assim se construía a sua personalidade; como artista dotado de tanta sensibilidade e como bom neto de espanhóis e italiano/francês, muitas vezes ele tinha expressões fortes e radicais, quando falava de certas situações na Igreja. Seu temperamento era forte e muitas vezes impulsivo. Quantas vezes manifestou sua indignação sobre alguma situação, essa indignação própria daqueles que vivem uma grande paixão, um zelo extremado pelas coisas de Deus, pela Casa de Deus.
Vemos assim, como a arte do Cláudio Pastro foi feita para ajudar ao fiel a mergulhar no mistério de Deus, a elevar as pessoas para Deus.
No dizer do próprio Cláudio, “A arte realiza em nós uma lenta, silenciosa, mas profunda educação, autodomínio e conhecimento, disciplina e respeito. Pouco a pouco, observador e arte se fundem. Dá-se uma catarse. A arte é a vida em harmonia. ” E continua dizendo que “quem organiza um espaço (arquitetura, artes plásticas, música etc.) organiza, ao mesmo tempo, sua mente e coração. O espaço-arte nos prepara para a vida. A preocupação com a beleza, a harmonia, desenvolve uma personalidade aberta, universal, que não se prende a querelas banais do momento, pois a arte os conduz muito além... A arte nos une ao invisível”. (Livro: “O Deus da beleza” pág. 47, C. Pastro).
Tudo isso encontramos nos trabalhos do Cláudio. Essa arte como processo educativo, evangelizador, que como tal gera equilíbrio e forma espaços belos, continuidade daquilo que se é, reflexos da beleza contemplada, cativada e cativadora.
Essa é a grande verdade: A beleza nos educa por inteiro, vai além da razão imediata, tranquiliza os ânimos e chega a nos dar alegria e felicidade. A arte como expressão dessa beleza nos cura e nos diviniza. No dizer do grande escritor russo Dostoievski: “ A beleza salvará o mundo”, dita no livro “O idiota”. (Cláudio sempre citou muito essa frase).
Cláudio, portanto, desenvolveu em sua vida esse dom da organização, de bom administrador, da criatividade, de disciplina diária, educando a sua vontade, pois não se pode fazer o que se quer, como ele mesmo tanto dizia. Para isso ele gostava de dar o exemplo do barro, da argila. Quem trabalha o barro, sabe que tem de respeitar os tempos do barro (amassar, tirar as bolhas, esperar a secagem, recomeçar, acompanhar as temperaturas e os graus de umidade, etc.) e não seguir o próprio ímpeto. Não é o barro que obedece às minhas ordens, sou eu que devo entrar no seu ritmo e natureza para, assim, juntos realizarmos uma bela obra.
A arte, das atividades humanas, é a que mais se aproxima do Mistério, e é um dos claros canais que une o Espírito e o humano. A beleza nos completa antecipando e indicando o bem e a verdade antes que esses valores se tornem reais.
Como é verdadeiro dizermos que uma obra de arte (concerto, pintura, arquitetura...), pela admiração, pelo simples impacto da beleza, consegue nortear e orientar a pessoa muito além de teorias e de demonstrações. Muitas vezes, as ciências e toda a racionalidade não convencem, não atingem o ser humano. Um simples canto ou som ou uma cor dão-nos uma resposta plena. A beleza é o grande sinal de esperança. Ela nos orienta e nos polariza para Deus, a Eterna Beleza.
No dizer do atual Arcebispo de Diamantina e que tanto conheceu e conviveu com o Cláudio no Santuário Nacional de Aparecida, Dom Darcy José Nicioli, ele era um homem de Deus, um verdadeiro teólogo. Um liturgista que como artista sacro foi conduzido pelas mãos de Deus. É Deus que falava por suas mãos, por seu olhar.
Sim, o Cláudio foi um homem muito completo a nível espiritual, artístico e humano.
Na Missa da celebração de um ano de sua páscoa o Pe. Contieri, S.J. dizia em sua homilia em nosso Mosteiro, de que o Cláudio foi um homem corajoso que traduziu a sua coragem na sua vida entregue a Deus através da arte. Profundamente unido a Cristo; tantas vezes ele dizia de que a sua arte era fruto da ação de Cristo na sua vida; era a inspiração, era dom, portanto ele não tinha do que se gloriar, como dizia São Paulo em suas Cartas. Cláudio era corajoso por defender a Igreja, por defender o espaço litúrgico, por defender a dignidade da pessoa. Olhando para Aparecida, quem ganhou com Aparecida foram os romeiros que lá vão. A obra do Cláudio em Aparecida dá dignidade à muitas pessoas que lá vão, maltratadas pela vida. A arte dá às pessoas que lá vão o seu real valor. Aquela Basílica é para o povo de Deus. Portanto, certamente quando o Cláudio pintava, era nas pessoas que ele pensava. Se ele tinha consciência disso, ele deu dignidade às pessoas. Os espaços que ele interviu para fazer, para corrigir, para refazer, as pessoas que lá iam, podiam se sentir dignas, e se sentiam, pelo modo mesmo em que as coisas estavam dispostas. Não se precisa de mais nada para que o coração seja elevado, não se precisa de floreios. Ele sempre repetia uma frase quando fazia a reforma do Pateo do Colégio: “As pessoas precisam entrar aqui e se sentirem rezadas”. Toda a sua arte, todo o seu trabalho, toda a sua vida, que era fruto dessa contemplação do mistério de Deus, certamente, estava em função disso: da elevação do coração das pessoas a Deus, que não nos abstrai deste mundo, mas que faz com que nós reconheçamos que tudo é dom, inclusive a nossa vida e a nossa salvação. Pe Contieri falou também de um livro intitulado “Sobre ombros de gigantes” que são textos escolhidos dos Padres da Igreja e que diz, em sua introdução, que há pessoas que nos colocam sobre os ombros para que possamos ver mais longe. Evidentemente esse texto se referia aos Padres da Igreja que são esses gigantes da nossa fé que nos ajudam a ver mais longe, onde os olhos talvez, se nós nos mantivéssemos na nossa estatura, os nossos olhos não poderiam alcançar; talvez com a sua arte o Cláudio nos coloca nos ombros também, para que possamos ver mais longe, aquilo que por nós mesmos nós não poderíamos. Nós precisamos do dom dos outros, nós precisamos dos outros, para vermos mais longe. Nós precisamos da coragem de carregar outros nos ombros, mas ao mesmo tempo da coragem de sermos carregados para vermos mais longe. A salvação é um dom que nos é oferecido, é graça. A graça de Deus faz com que nós sejamos a imagem do Cristo, pessoas amantes da verdade, ouvintes da Palavra, para conhecermos o mistério de Deus.
Não temos dúvidas de que o Cláudio Pastro foi um marco da arte sacra e o Santuário de Aparecida é a sua obra prima pelo volume de seus trabalhos. Foi por causa desse trabalho que ele foi chamado de “Michelangelo brasileiro”.
No Santuário de Aparecida nós temos a maturidade do seu trabalho, de um homem que tinha a preocupação com o sagrado. Ele soube traduzir os conceitos litúrgicos para que fossem entendidos e compreendidos por todos. E assim ele conseguiu transmitir a grandeza da fé cristã. Por exemplo, na cúpula da Basílica recentemente inaugurada, no dia 11 p.p, está a árvore da vida onde os pássaros vêm se aninhar, como nós, os cristãos nos aninhamos na Igreja para nela nos alimentarmos.
Essa imagem de que a beleza é a vida. É o que ganhamos da vida em terras brasileiras. Não há nada na arte do Cláudio que não tenha um significado, um sentido, uma simbologia. Na arte sacra não há enfeites.
A cúpula da Basílica nos revela que Deus é luz! Essa luz que quando penetrada em nós nos faz vermos toda a realidade transfigurada.
A experiência de quem visita o Santuário Nacional de Aparecida é de renascimento. A Basílica é um útero e o fiel precisa renascer.
O artista sacro tem essa missão de fazer o fiel encher-se de Deus e de levar essa presença para a labuta da sua vida.
Conto aqui um fato narrado por ele mesmo quando estava pintando a borda da entrada do prédio da torre Brasília do Santuário de Aparecida:
Ele estava retratando os diversos fieis que acorriam ao Santuário, e pintava os papas que lá estiveram em visita, quando desceu dos andaimes para descansar um pouco. Viu, então, uma senhora muito pobrezinha que se dirigia para o balcão dos devotos que oferecem doações para o Santuário. Ela trazia nas mãos um lenço que envolvia uns trocados. Ele a ouviu dizer ao entregar esse dinheirinho que aquela oferta era da venda de todos os ovos que as suas galinhas tinham produzido naquele mês. Comovido com esse relato subiu no andaime e imediatamente estampou para as futuras gerações aquela senhora carregando nas mãos uma cesta com as suas galinhas e os ovos.
Um artista sacro não se forma só pelos louros que recebeu durante a sua vida, e do maravilhamento e da admiração daqueles que contemplam sua arte, tampouco dos prêmios e homenagens que recebeu. Sabemos o quanto Cláudio sofreu e foi purificado por sua precária saúde física. No ano de 2001 teve um coma de 40 dias por causa da hepatite C e por essa razão perdeu o fígado e precisou se submeter a um transplante, no ano seguinte. Daí se sucederam inúmeras intervenções cirúrgicas e no ano passado após uma última e grande intervenção, sua saúde ficou muito comprometida vindo a falecer de um AVC hemorrágico no Hospital Oswaldo Cruz na madrugada do dia 19 de outubro. Como o Apóstolo São Paulo ele pode dizer: “Completo em minha carne, o que falta à Paixão de Cristo” (Col 1,24).
Um artista sacro se forma, pois, desses acontecimentos do dia a dia da vida humana de todos nós, e de reconhecer que tudo que temos e somos, vem de Deus, que devemos ser realmente instrumentos de Deus e para Deus; e que nossa vida aqui deve ser um empenho de fazer com que “em tudo seja Deus glorificado”, e que só assim vale a pena viver! Amém.

PS : Após a colocação do Sr. Fernando e de vermos várias fotos do Cláudio e de suas obras, lembrei-me de algo sobre ele, que eu tinha intenção de falar, e acho que seria bem oportuno, uma vez que pode ser que muitos não saibam.
Cláudio, quando ainda bem jovem, teve um desejo muito grande de viver a vida monástica, de ser monge, ao conhecer o Mosteiro beneditino da Anunciação, em Curitiba, de origem francesa. O Mosteiro fechou alguns anos depois. E Cláudio foi então sendo orientando para os estudos de Arte Sacra. Porém, aquele desejo inicial nunca se extinguiu por completo. As três casas que ele construiu e morou se assemelham muito a pequenos mosteirinhos, como vimos a pouco. Na primeira delas, em Nazaré Paulista, havia até uma pequena torre com sino e uma capela pintada por ele. Essa casa/mosteiro ficou para os padres do Movimento Comunhão e Libertação. A segunda casa foi em Itapecerica da Serra, igualmente com forma de mosteirinho, com uma bela capela pintada por ele. A terceira foi em Morungaba, também com uma pequena capela, agora já em proporções menores e por fim ele comprou esse apartamento, próximo à casa de sua mãe. O interessante é que esse artista/monge de coração, que sempre desejou viver uma vida monástica em plenitude, realizou o seu sonho após a sua páscoa, sendo enterrado num mosteiro beneditino. Esse seu desejo se deu há muitos anos atrás, quando nossa igreja passava por uma reforma para ser ampliada, no ano 2000. Consultando a comunidade todas concordaram com essa possibilidade e pedimos licença à Prefeitura de Itapecerica da Serra, para termos uma sepultura externa como anexo ao nosso Cemitério dentro da clausura. Cláudio ficou muito feliz ao receber esse documento com essa licença especial e comunicou isso só para sua sobrinha. Nessa mesma época ele piorou de saúde entrou em coma por 40 dias. Ele depois nos contou que durante aqueles dias ele viveu uma experiência muito bela em que caia sobre ele ícones do Cristo e da Mãe de Deus. Após visualizar um Cristo crucificado em que ele via o seu próprio rosto, ele viu um belíssimo Cristo iluminado, terno e majestoso. Quando acordou do coma e saiu do hospital, quis reproduzir essa imagem em nossa igreja, ainda em reforma, tentando fazer o mais próximo do que tinha visto. E assim fez o Pantocrator da nossa igreja. O seu medo era de morrer antes de terminar essa obra...e mal sabia ele tudo o mais que ele realizaria nos anos seguintes.
Eis o Cláudio Pastro, esse gigante da nossa fé e da nossa Arte Sacra.
Obrigada a todos pela presença e pela escuta tão atenta!

À guisa de complementação
Cláudio Pastro, é considerado por arquitetos e especialistas um dos mais importantes e respeitados artistas sacros do mundo em atividade até o ano passado.
Cursou teoria e técnicas de arte na Abadia Notre Dame de Tournay, no Sul da França, estudou, também, na Espanha, Itália, México e no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Dedicou-se a construir igrejas e capelas não só no Brasil, como também na Argentina, México, Bélgica, Itália, Alemanha, Portugal, Espanha e França e, recentemente, com trabalhos na Inglaterra. Tendo realizado painéis em azulejos, mosaicos e afrescos, além de pinturas, vitrais e esculturas. Suas obras estão presentes em mais de 350 igrejas.
Foi o artista escolhido pela Santa Sé para conceber a imagem do Cristo Evangelizador do Terceiro Milênio, para as celebrações do Jubileu do ano 2000, obra que se encontra exposta no Vaticano; e recentemente os Jardins do Vaticano recebeu o Monumento dedicado à Nossa Senhora Aparecida em aço cortén.
Autor de vários livros, entre eles: Guia do Espaço sagrado, 1999, Arte Sacra, 2001; O Deus da Beleza/ A educação através da beleza, 2008; A Arte no Cristianismo, 2010; Imagens do Invisível, 2013; e o Livro sobre Aparecida, pois desde o ano 2000 foi o responsável pela arte na Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Agora com uma nova edição com fotos de seus últimos trabalhos (baldaquino e cúpula central).
Durante 40 anos dedicados à arte sacra administrou inúmeros Cursos, Conferências, palestras...
O tema que ele mais abordava era sobre “ liturgia e o espaço sagrado”, pois como ele dizia: “o espaço revela o espírito que habita o lugar e indica uma presença, o invisível no visível. O espaço sempre nos reúne para que Ele esteja no meio de nós”. Amém!

Ir. Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB
Abadessa do Mosteiro N.Sra. da Paz
Itapecerica da Serra – SP
Mosteiro de São Bento, 21 de outubro de 2017