Publicada no dia 12/08/2016
ALOCUÇÃO À COMUNIDADE APÓS A PÁSCOA DE IR.MARIA BEATRIZ
Querida Madre Regina e minhas queridas Irmãs

Já há duas semanas que eu deveria ter dito a todas vocês alguma palavrinha sobre a nossa querida e saudosa Ir.Maria Beatriz. No dia 29 de julho caiu o nosso onomástico, seria o dela e o meu, e celebramos com um dia livre comunitário e na 6ª. feira passada foi o nosso dia de Subiaco. Hoje, portanto, foi o dia escolhido pelo Senhor, dia ainda que antecede a nossa peregrinação à Aparecida.
Lembrei-me esses dias de um texto muito bonito e profundo do Rabino Henry Sobel intitulado: “Amava a vida e nunca perdeu a fé que diz:
Imagine estar à beira-mar e vê um navio partindo.
Você fica olhando enquanto ele se vai afastando, afastando,
cada vez para mais longe,
até parecer ser um ponto apenas no horizonte, lá, onde o mar e o céu se encontram.
E você diz: “Pronto! Ele se foi”.
Foi para onde?
Para um lugar que sua vista não alcança. Só isso.
Ele continua tão grande, tão bonito e tão importante como quando estava perto de você.
A dimensão diminuída está em você, não nele.
E nesse momento exato em que você diz que ele se foi, há outros olhos vendo-o aproximar-se e outras vozes exclamando com júbilo:
“Ele está chegando!”

Minhas queridas irmãs, foi tão interessante que eu pensei nesse texto, que eu tenho guardado comigo, mas ontem, ao mexer numa das caixas de nossa Ir. Maria Beatriz eu encontrei justamente esse texto copiado por Ir.Mônica há anos e atrás desse texto com a letra dela escrito: “É maior a alegria de termos tido tal Mãe, do que a dor de vê-la partir agora” (Adaptação).
Sim, é exatamente isso que eu gostaria de começar dizendo para vocês. É maior a alegria de termos convivido com nossa Ir. Maria Beatriz durante tantos anos, do que a dor da separação de termos visto ela partir agora.
Imaginem a torcida do lado de lá quando esse navio se aproximava...
Sabemos que a morte é o momento mais importante de nossa existência terrena. É a porta de ingresso para a eternidade. E não é sem motivo que São Bento coloca como dois dos instrumentos das boas obras: “Desejar a vida eterna com todo o ardor espiritual”; e “ter diariamente a morte diante dos olhos.” Tudo que fazemos nos leva a esse dia derradeiro em que entregaremos toda a nossa existência ao Senhor que nos criou.
Uma das características mais marcantes de nossa querida Irmã Maria Beatriz era a sua disponibilidade, a sua bondade em querer a todos ajudar, a sua compaixão com todas as situações que necessitava um cuidado, desde a necessidade de uma Irmã como o cuidado dos passarinhos. Lembro-me bem, ainda quando eu era postulante, de ter visto ela cuidar de um passarinho que tinha batido no vidro da igreja, com tanto carinho...ela molhou seu bico com água, e jogou água na sua cabecinha e quando viu que sua perninha estava fraturada, fez uma atadura com papelão e enfaixou o pobre moribundo que após tantas atenções só poderia ter sobrevivido.
Ela sempre viveu para os outros; de um altruísmo ímpar. Ela escolheu a profissão certa antes de entrar na Abadia de Santa Maria: a enfermagem. Ela se realizou como enfermeira trabalhando em hospitais, auxiliando em cirurgias e sobretudo aliviando as dores dos pobres e doentes. Na família era a alegria da casa, com suas canções, seus oferecimentos e a sua companhia fosse para a mãe, fosse para as suas irmãs mais novas. Mas quando entrou em Santa Maria, foi chamada a viver totalmente mergulhada no grande mistério de amor do Deus Trino. Lá serviu em muitos trabalhos, mas foi na sacristia e na enfermaria que exerceu o seu serviço de amor à comunidade. Aqui, em Nossa Senhora da Paz não foi diferente. Foi sacristã, enfermeira, responsável pela hospedaria, responsável pela oficina de cerâmica e pintura, prioresa, e auxiliar de várias oficinas: rouparia, portaria, biblioteca, artesanato inglês...se havia algum trabalho para ser feito, ali estava ela par servir... E não foi por acaso que o Senhor veio busca-la nesse Ano Santo da Misericórdia; eu diria que como ela partiu na véspera da festa do Profeta Santo Elias, que ela foi arrebatada para o Céu numa carruagem de fogo. Ela tinha pressa desse encontro tão esperado com o Esposo Amado do seu coração.
O Papa em sua Bula “Misericordiae Vultus” nos diz:
“Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.”

E ainda:
“Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. « Deus é amor » (1Jo 4,8.16): afirma-o, pela primeira e única vez em toda a Escritura, o evangelista João. Agora este amor tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus. A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão.”
Falar algo sobre nossa Ir. Maria Beatriz é falar desse coração misericordioso que ela teve, totalmente configurado ao coração de Jesus, Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas, por cada uma; que vai buscar aquela pequena e frágil que se desgarrou, e a trás em seus ombros.
Sabemos como esses últimos anos de nossa Irmã estavam sendo difíceis. Suas forças vinham declinando dia após dia, e os problemas de saúde se complicando. O peso da idade com essas dificuldades estavam lhe gerando um grande cansaço físico. Ela que sempre era vista pelos claustros com seu andador, saracoteando pelos jardins procurando flores, já não a encontrávamos mais. Ela aceitou andar de cadeira de rodas por sentir que não dava mais conta com as distâncias. Mas ao Coro não faltava! Era a sua fonte de reabastecimento, acordada ou dormindo! Queria estar onde estava a sua comunidade! Que lindo testemunho de verdadeira vida comunitária, queridas Irmãs!
Afinal ela tinha respondido com todo o seu ser ao convite do Senhor: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” (RB Pr 14).
Nós sabemos o quanto ela era feliz! E repetia isso muitas, muitas vezes, mesmo quando já tão debilitada.
Ela viveu em plenitude o 6º grau da humildade em que consiste que esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema...estava contente com tudo!
Nesses últimos tempos, mesmo ela estando sempre em Completas, eu gostava de ir à sua cela para dar-lhe a última bênção e desejar-lhe boa noite. Talvez mais do que o bem para ela, era um imenso bem para mim mesma. A alegria com que ela me recebia todos os dias, tornava concreto e real o que São Bento nos diz no capítulo 2º sobre o abade: “Com efeito, crê-se que, no mosteiro, ele faz as vezes do Cristo”. Sim, minhas irmãs, ficava claro para mim que era à Ele que ela recebia, e assim me edificava.
Não há maior graça que a fé! Ela que nos faz “colocar toda a esperança em Deus” e amarmo-nos umas às outras como Cristo nos amou. Eis o belo testemunho de vida que nos deixa nossa Ir. Maria Beatriz: Sua fé inabalável, sua esperança viva, sua caridade amorosa e intensa por todas e todos sem distinção.
Essa mesma fé a fez perceber que “tudo é Dele, por Ele e para Ele”. Assim celebrou seus jubileus de 25, 50 e 60 anos, sabendo que eram “graças a Deus” que os celebrava! Minha oração suba a Vós como incenso, para que todos sejam Um.
Um fato muito impressionante dos últimos dias de nossa Ir. Maria Beatriz era a certeza que ela tinha de que o Senhor estava perto. Ela disse abertamente tanto para mim como para a nossa Ir. Emanuela, que estava tão próxima a ela, que iria morrer. Para mim, dias antes de ir para o Hospital ela disse que o seu coração estava chegando ao fim. Eu logo disse que não “imagina”, que ela ia ainda longe..., mas ela disse séria que sentia que não e que era uma grande graça saber que Ele viria busca-la. E já no Hospital ela também disse isso para a nossa Ir. Emanuela: Que iria morrer e que estava dando graças a Deus que ia morrer. E quando ela ainda estava aparentemente bem. Até para a médica ela disse a mesma coisa e depois ainda: “Vou morrer, graças a Deus”. E queria morrer na igreja. Ser levada para a igreja. E de certa forma ela ficou mesmo num lugar como uma capela, sendo preparada para as núpcias com o Esposo, tão amado durante toda a sua vida.
Impressionante, também, foi ter sabido que na véspera daquele domingo, ela começou a cantar no quarto aquela música “O Povo de Deus”, cantando várias estrofes...e ainda dizia para a Ir. Emanuela: “canta agora o resto”...
Ela partiu serena e tranquila, cantando, alegre, servindo como sempre, pronta, com sua lâmpada acesa e tendo sido provada como o ouro é provado na fornalha; viveu tudo intensamente; lutou até o fim; e entregou tudo, assemelhando-se ao Senhor quando disse no alto da cruz: “Tudo está consumado”!
Tudo é lindo no mosteiro: viver e morrer!
Uma de nossas irmãs mais novas dias depois me dizia: como é lindo morrer no mosteiro! A Irmã é lembrada durante 30 dias com Missas diárias e orações especiais no Coro e no refeitório!
Sim, no mosteiro tudo é vivido intensamente: a vida e a morte.
Antes de terminar quero agradecer de coração a cada uma, por toda a dedicação e amor que tiveram à nossa Ir. Maria Beatriz, de modo especial nesses últimos meses que antecederam sua páscoa. Se nem um copo de água ficará sem recompensa pelo Senhor, quantas graças não nos dará o Pai das misericórdias por tudo que cada uma fez por amor? ...
Gostaria de terminar com um belíssimo texto de Santo Agostinho de Hipona sobre a morte:

“A morte não é nada.
Apenas passei para o outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro, ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou:
Continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Porque eu estaria fora dos teus pensamentos,
Apenas porque estou fora da tua vista?
Não estou longe,
Somente estou do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem...
Redescobrirás o meu coração,
E nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca as tuas lágrimas
E se me amas
Não chores mais”.
Na 2ª. feira que vem, levaremos em nosso coração, para Aparecida, nossas 4 pedras preciosas que já se encontram na Abadia eterna, e agradeceremos de modo especial a nossa Mãe Aparecida, a graça imensa de termos tido elas como nossas irmãs, com seus corações ardentes e que nos deixaram uma bela herança a seguirmos, da verdadeira caridade.

Para que em tudo seja Deus glorificado. Amém!