Publicada no dia 08/08/2016
ALOCUÇÃO NA COLAÇÃO DE OFÍCIOS DO ANO DE 2016
Querida Madre Regina e queridas Irmãs
Como é bom para nós estarmos aqui! (Mt 17,4). Aqui, nessa escola do serviço do Senhor onde aprendemos cada dia a nos anteciparmos mutuamente na caridade, nada antepondo ao amor de Cristo! (RB 72).
Como é bom termos mais duas pedras preciosas da nossa comunidade junto de Deus e termos nessa Colação dos Ofícios a alegria da participação pela primeira vez de duas noviças e duas novas postulantes. É uma grande graça vivermos juntas esse momento tão importante de uma comunidade que é a renovação dos ofícios.
Sim, é muito bom estarmos aqui, parafraseando o apóstolo São Pedro diante da luz luminosa que o Cristo irradiava no Monte Tabor durante a sua Transfiguração. É Ele e só a luz que emana Dele que pode transfigurar o nosso cotidiano, o ordinário de nossa vida e nos dar essa graça de vivermos de uma forma renovada os Ofícios que nos serão confiados, ainda que possamos ter por mais um triênio os mesmos trabalhos; porque o bom mesmo, queridas Irmãs, e estarmos aqui, nessa busca diária e incessante da Face de Deus.
Como é bom vivermos essa renovação dos Ofícios nesse Ano Santo da Misericórdia em que podemos experimentar a força renovadora do amor infinito de Deus por cada uma de nós.
No sábado, após assistirmos uma parte da gravação da abertura das Olimpíadas, fomos para as Vésperas, precedidas pelo rito do Lucernário, como de costume. Quando a Irmã da sacristia me entregou o círio pascal não pude deixar de pensar numa bela imagem que se tornou uma prece. Enquanto eu entrava eu disse para mim mesma: “Eis aqui a verdadeira tocha olímpica! Eis aqui, Senhor a nossa delegação, talvez pequena e frágil, mas repleta do desejo de Te seguir aonde quer que Tu vás. Eis aqui a verdadeira tocha, a luz de Cristo, a única que pode acabar com as trevas dos corações; a única que pode iluminar todos os caminhos; a única que não perece, não se apaga, não fumega. O espetáculo humano por mais belo que possa ser, acaba. Tudo era belo porque era à noite, porque havia inúmeros recursos humanos e tecnológicos; mas de dia toda aquela beleza artificial termina”. Pensei, então, enquanto entrávamos, herdeiras de tão longa tradição de monges e monjas que nos precederam na vida monástica, em como representávamos todas as modalidades esportivas... a corrida para nos anteciparmos mutuamente em honras; o arremesso do pecado para longe de nós; o gol da caridade fraterna; a cesta das obras de misericórdia; a ginástica para nos servirmos no dia a dia; os mergulhos na Palavra de Deus; o suportar o peso do dia sem murmurarmos; e as maratonas, inúmeras, 7 vezes por dia, para apresentarmos ao Senhor as necessidades do mundo inteiro. As necessidades de milhares e milhares de pessoas que fazem verdadeiros malabarismos para entrarem nos ônibus para irem diariamente garantir o pão de cada dia. Sim, minha Irmãs, foi um flash rápido que me fez sentir orgulho de estar ali, carregando a verdadeira Tocha que ilumina as nossas vidas, aquela mesma que como coluna de fogo iluminou o povo na saída do Egito. Eu na verdade queria naquele momento “gritar” para o mundo todo que era aqui a verdadeira Olimpíada! Nós que somos capazes, sim, de vencermos a maratona de cada dia sem deixarmos ninguém para trás. Somos capazes de voltar já perto da linha de chegada, para carregarmos umas às outras e assim chegarmos juntas, “todas juntas para a vida eterna”.
Como não nos lembrarmos do apóstolo São Paulo que aproveitou a imagem de uma realidade tão comum ao mundo grego quando escreveu aos Coríntios:
“Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível. Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto; é assim que pratico o pugilato, mas não como quem fere o ar. Trato diariamente o meu corpo, reduzo-o à servidão, a fim de que não aconteça que tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado.” (1Cor 9, 24-27)
É bom estarmos aqui, queridas Imãs! É bom vivermos aqui! Aqui, tão perto do Senhor, onde acreditamos que Ele está no meio de nós, porque assim prometeu: “quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”.
Que o Senhor nos conceda sempre uma visão iluminada pela fé, um desejo ardente de servir às irmãs com alegria, uma disposição renovada e sobretudo um desejo intenso e profundo de fazer tudo para a glória de Deus.
Que possamos nesse novo recomeço dos nossos trabalhos ter todo o empenho para darmos o melhor de nós mesmas, para que a beleza da luz de nossa tocha olímpica seja irradiada e ilumine a humanidade tão necessitada nesse momento dessa verdadeira Luz e da verdadeira Paz.
Que reiniciemos os nossos trabalhos com novo ânimo, com o coração dilatado e o imenso desejo de aprender e de servir.
Somos chamadas cada dia a uma generosidade inesgotável, e a transpor todo aspecto humano e limitado da nossa vida e a transcender, vivendo uma vida unicamente sobrenatural, dentro de uma realidade humana.
Na próxima 2ª. feira teremos a imensa graça de como peregrinas, nesse Ano Santo, irmos ao Santuário de Aparecida e lá colocarmos aos pés de Maria, Padroeira do Brasil e nossa Mãe, nosso novos Ofícios para que em tudo seja Deus glorificado e que possamos com alegria renovada fazermos tudo para a maior glória de Deus!

Apenas antes de terminar, eu me lembrei, enquanto preparava essa alocução para a Colação, da minha primeira Colação dos Ofícios como Abadessa, em 1998. No dia seguinte, discretamente, nossa Madre Dorotéia me procurou, na sua caridade habitual e fraternalmente me disse: “Estava muito boa, mas penso que a senhora poderia não se estender tanto, pois numa Colação de Ofícios, o que mais as Irmãs desejam é saber para quais trabalhos foram designadas” ... (eram 9 folhas de caderno!)

Oremos: Inspirai, ó Deus, as nossas ações, os nossos trabalhos, e ajudai-nos a realizá-los, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizermos.
Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo...

Ir.Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb