Publicada no dia 14/02/2018
CAPÍTULO QUARESMAL 2018
Querida Madre Regina, minhas queridas Irmãs
É com a alegria do Espírito Santo, que iniciamos, hoje, esse tempo de salvação, tão rico e profundo espiritualmente, esse tempo da quaresma. Esse ano nós temos a alegria da presença de nossa postulante Leidiane, nessa sua primeira quaresma no Mosteiro.
Acabamos de ouvir na leitura da Santa Regra sentenças que são muito importantes para a nossa vida, não apenas nesse tempo privilegiado, que é a Quaresma:
“Com a alegria do Espírito Santo” (RB 49,6s)
“Na alegria do desejo espiritual”
Porque... ”Deus ama aquele que dá com alegria” (RB 5,16).
Esse tempo privilegiado nos quer chamar a atenção de que precisamos sempre reconstruir algo em nossa vida, quer dizer, cultivar a vida que Deus nos deu pelo seu Espírito vivificador. Renovação e reconciliação: paz com Deus e com os irmãos são igualmente obra do Espírito divino em nós.
Queremos pedir a Deus que o Espírito Santo tome realmente posse de cada uma de nós, a fim de que a nossa comunidade seja realmente uma Casa de Deus.
No coração do capítulo sobre a “observância da Quaresma”, coloca São Bento a palavra-chave: “Na alegria do Espírito Santo”... A vida do monge, como a do cristão, deve ser “vida espiritual, isto é, vida orientada, impulsionada e animada pelo Espírito de Deus que é o Espírito de amor.
Deus é AMOR (1 Jo 4,8) e mediante o Espírito, esse amor foi derramado em nossos corações.
Estamos nos preparando para vivermos o grande Dom da Páscoa, dessa alegria de 50 dias, guiadas pela liturgia da Igreja, que é por excelência o tempo do Espírito Santo dado “sem medida” (cf. Jo 3,34) por Jesus crucificado e ressuscitado. Este tempo de graça acaba com a festa de Pentecostes, quando a Igreja revive a efusão do Espírito Santo sobre Maria e os Apóstolos reunidos em oração no Cenáculo.
Nossa, é uma alegria expectante, de ávida preparação. Evoca-se tal ânimo jubiloso exatamente no primeiro dos prefácios da Quaresma: “ Ano após ano, concedeis a vossos filhos esperar com alegria a festa da Páscoa, preparando-se pela penitência...” A tradução respeita o original latino: in gaudio expectare (esperar com alegria), mantendo o acento mais na antecipação do que na posse presente. Na Regra, São Bento usa expressão semelhante, encorajando seus monges, na época da Quaresma, a “esperarem pela santa Páscoa com a alegria do desejo espiritual”.
Mas quem é o Espírito Santo? Nosso Papa Francisco em uma de suas catequeses nos ensina: No Credo professamos com fé: "Creio no Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida". A primeira verdade a qual aderimos no Credo é que o Espírito Santo é Kyrios, Senhor. Isto significa que Ele é verdadeiramente Deus, como o é o Pai e o Filho, objeto, de nossa parte, do mesmo ato de adoração e de glorificação que dirigimos ao Pai e ao Filho. O Espírito Santo, de fato, é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade; é o grande dom do Cristo Ressuscitado que abre a nossa mente e o nosso coração à fé em Jesus como o Filho enviado do Pai e que nos guia à amizade, à comunhão com Deus.
Mas gostaria de focar sobretudo no fato de que o Espírito Santo é a fonte inesgotável da vida de Deus em nós. O homem de todos os tempos e de todos os lugares deseja uma vida plena e bela, justa e boa, uma vida que não seja ameaçada pela morte, mas que possa amadurecer e crescer até à sua plenitude. O homem é como um viajante que, atravessando os desertos da vida, tem sede de uma água viva, jorrando e fresca, capaz de saciar em profundidade o seu desejo profundo de luz, de amor, de beleza e de paz. Todos sentimos este desejo! E Jesus nos dá esta água viva: essa é o Espírito Santo, que procede do Pai e que Jesus derrama em nossos corações. "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância", nos diz Jesus (Jo 10,10).
Jesus prometeu à Samaritana dar uma “água viva”, em abundância e para sempre, a todos aqueles que o reconhecem como o Filho enviado pelo Pai para salvar-nos (cf. Jo 4, 5-26; 3, 17). Jesus veio para nos dar esta "água viva" que é o Espírito Santo, para que a nossa vida seja guiada por Deus, seja animada por Deus, seja alimentada por Deus. Quando nós dizemos que o cristão é um homem espiritual queremos dizer exatamente isso: o cristão é uma pessoa que pensa e age segundo Deus, segundo o Espírito Santo. Mas, me pergunto: e nós, pensamos segundo Deus? Agimos segundo Deus? Ou nos deixamos guiar por tantas outras coisas que não são realmente Deus? Cada uma de nós deve responder a isso no profundo do seu coração.
Neste ponto, podemos perguntar-nos: por que esta água pode extinguir a nossa sede até o final? Sabemos que a água é essencial para a vida; sem água morremos; ela sacia, lava, fecunda a terra. Na Epístola aos Romanos encontramos esta expressão: "o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (5, 5). A "água viva", o Espírito Santo, dom do Ressuscitado que vem habitar em nós, nos purifica, nos ilumina, nos renova, nos transforma porque nos faz participantes da própria vida de Deus que é Amor. Por isso, o Apóstolo Paulo afirma que a vida do cristão é animada pelo Espírito e pelos seus frutos, que são “amor, alegria, paz, magnanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio" (Gl 5, 22 -23). O Espírito Santo nos conduz para a vida divina como "filhos no Filho Unigênito”. Em outro trecho da Carta aos Romanos, São Paulo o sintetiza com estas palavras: “Todos aqueles que são guiados pelo Espírito Deus, são filhos de Deus. E vocês... receberam o Espírito que faz filhos adotivos, por meio do qual clamamos: “Abba, Pai”! O Espírito mesmo, junto com o nosso espírito, testemunha que somos filhos de Deus. E se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, coerdeiros com Cristo, se realmente participamos do seu sofrimento para participar também da sua glória” (8, 14-17). Este é o dom precioso que o Espírito Santo coloca em nossos corações: a própria vida de Deus, vida de verdadeiros filhos, uma relação de confidência, de liberdade e de confiança no amor e na misericórdia de Deus, que tem como efeito também um novo olhar para os outros, próximos ou distantes, vistos sempre como irmãos e irmãs em Jesus que merecem respeito e amor. O Espírito Santo nos ensina a olhar com os olhos de Cristo, a viver a vida como a viveu Cristo, a compreender a vida como a compreendeu Cristo. Eis porque a água viva que é o Espírito Santo sacia a nossa vida, porque nos diz que somos amados por Deus como filhos, que podemos amar a Deus como filhos de Deus, como Jesus. E nós, escutamos o Espírito Santo? Ele nos diz: Deus te ama. Nós amamos verdadeiramente a Deus e aos demais, como Jesus? Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, deixemos que Ele nos fale ao coração e nos diga isso: que Deus é amor, que Deus nos espera, que Deus é o Pai, nos ama verdadeiramente e, isso, o diz somente o Espírito Santo ao coração. Sintamos o Espírito Santo, escutemos o Espírito Santo e sigamos adiante por este caminho do amor, da misericórdia e do perdão. Deixemos de lado o espírito do mundo que nos conduz à mediocridade e a mentalidade mundana. Se estamos impregnadas das coisas do mundo não deixamos espaço para o Sopro Divino que nos quer renovar.
São Basílio Magno em seu tratado sobre o Espírito Santo nos ensina a ação do Espírito Santo. Ele nos diz:
“Qual é o homem que, ao ouvir os nomes com os quais é designado o Espírito Santo, não eleva seu ânimo e seu pensamento para a natureza divina? É chamado Espírito de Deus, Espírito da Verdade que procede do Pai, Espírito de retidão, Espírito principal e, como nome próprio e peculiar, Espírito Santo.
Volta-se para ele o olhar de todos os que buscam a santificação; para ele tende a aspiração de todos os que vivem segundo a virtude; é seu sopro que os revigora e reanima para atingirem o fim natural e próprio para que foram feitos.
Ele é fonte da santidade e a luz da inteligência; é ele que dá, de si mesmo, uma certa iluminação à nossa razão natural para que encontre a verdade.
Inacessível por sua natureza, torna-se acessível por sua bondade. Enche tudo com seu poder, mas comunica-se apenas aos que são dignos; não a todos na mesma medida, mas distribuindo seus dons em proporção da fé. Simples na essência, múltiplo nas manifestações de seu poder, está presente por inteiro em cada um, sem deixar de estar todo em todo lugar. Reparte-se e não sofre diminuição. Todos dele participam e permanece íntegro, à semelhança dos raios do sol que fazem sentir a cada um sua luz benéfica como se fosse para ele só, e, contudo, iluminam a terra e o mar, e se difundem pelo espaço.
Assim é também o Espírito Santo: está presente em cada um dos que são capazes de recebê-lo, como se estivesse nele só, e, não obstante, dá a todos a totalidade da graça de que necessitam. Os que participam do Espírito recebem seus dons na medida em que o permite a disposição de cada um, mas não na medida do poder do mesmo Espírito.
Por ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Pois ilumina os que foram purificados de toda mancha e torna-os espirituais pela comunhão consigo.
E, como os corpos límpidos e transparentes, sob a ação da luz, se tornam também extraordinariamente brilhantes e irradiam um novo fulgor, da mesma forma também as almas que recebem o Espírito e por ele são iluminadas tornam-se espirituais e irradiam sobre os outros a graça que lhes foi dada.
Dele procede a previsão do futuro, a inteligência dos mistérios, a compreensão das coisas ocultas, a distribuição dos carismas, a participação da vida do céu, a companhia dos coros dos anjos. Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus; dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado.”
Somos convidadas, nesse tempo favorável para a nossa conversão, a vivermos essa intimidade com o Espírito Santo para melhor nos unirmos à Jesus que nos conduz ao Pai. O Pentecostes é um mistério cristológico. É Cristo que infundiu o Espírito Santo! Naquele dia Aquele que foi enviado aos discípulos não era outro senão o “Espírito de Jesus”, o Espírito do Filho, ou seja, a terceira pessoa da Trindade. O próprio Cristo de fato é aquele que dá e que recebe o Espírito Santo. Dá o Espírito Santo enquanto Cabeça, recebe-o enquanto Corpo. Temos somente a Escritura para falar do Espírito Santo e a experiência “espiritual”. O próprio Jesus indicou-nos esse meio quando falou do Espírito: “O mundo não o vê e não o conhece, mas vós o conheceis, porque permanece convosco” (Jo 14,17).
Temos de pedir a Deus essa graça de estarmos sempre “afinadas” com a melodia do Espírito Santo; seguindo suas moções; pedindo o Seu discernimento; sua iluminação e sobretudo os Seus Dons.
Esse é o fim último de nossa prática quaresmal, de nosso empenho em deixarmos aquilo que nos impede e dificulta de correr ao encontro do Senhor.
São Bento sabia bem o que estava fazendo quando O mencionou no Capítulo sobre a observância da Quaresma, e com um fruto que poderíamos estranhar nesse tempo, que é a alegria! Mas é próprio de quem se despoja, de quem partilha, de quem fica com o estrito necessário, de quem se contenta com pouco, sentir no fundo do coração uma imensa alegria. É o Espírito Santo que nos ensina a nos despojarmos do nosso orgulho, da nossa vaidade, do nosso egoísmo, da nossa mesquinhez e de nossas murmurações (que nosso Pai tanto condenava!) para nos transformar em criaturas novas, renovadas, pascais. Portanto, iniciamos nesse dia uma caminhada para um despojamento verdadeiro, de tudo que nos separa do Senhor e de nossos irmãos e irmãs; de tudo que nos é obstáculo para corrermos cada dia para Ele, guiadas pelo Evangelho, trilhando seus caminhos.
O Livro da Quaresma que escolhi para esse ano são:
Os Capítulos 14, 16 e 17 do Evangelho de São João e a 1Jo.
O 4º Evangelho é um escrito profundamente meditado e teológico. Nele há os discursos de Jesus, que expõem a transcendência de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo), o valor do Batismo, da Eucaristia, da graça e da fé.
São João autor do 4º Evangelho e da 1ª Epístola que traz o seu nome, se revela um autor contemplativo, capaz de perceber a verdade através das mais simples imagens da vida cotidiana: luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte, amor e ódio... O vocabulário é simples, mas rico em significado. O autor contempla e volta a contemplar a verdade e o seu pensamento vai para diante e para trás, à semelhança das ondas do mar. Somos assim convidadas aos mais altos cumes da contemplação.
Que o Espírito dado ao Messias, e por Ele aos fiéis, a nós, nos instrua sobre tudo nessa quaresma, e graças ao qual as palavras de Jesus são “espírito e vida”. Amém!

Ir.Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb