Publicada no dia 24/06/2018
ENTRADA NO NOVICIADO DA POSTULANTE LEIDIANE RODRIGUES ALVES (Ir.Giovanna.osb)

Querida Madre Regina, querida Irmãs, querida Leidiane

É com grande alegria que estamos, hoje, aqui reunidas, nesta Solenidade desse Santo tão querido da Igreja e de todas nós, para a entrada no noviciado de nossa querida postulante Leidiane.
Acabamos de ouvir esse trecho tão belo do Profeta Isaías (Is 43,1-5), e coincidentemente, o texto do Intróito da Missa que iremos cantar daqui a instantes é também tirado do Profeta Isaías (Is 49,1-2). “Chamei-te pelo teu nome: tu és meu...Pois que és precioso aos meus olhos, és honrado e eu te amo!...Não temas, porque estou contigo”. Que bela expressão do Profeta, que bela declaração de amor de Deus para o Povo de Israel... do Cristo para cada uma de nós, e hoje de modo especial para você Leidiane! E como resposta a esse poema de amor, está o salmista a cantar: “Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e visitar o seu santuário...É a vossa face, Senhor, que eu procuro...Espero contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos. Confia no Senhor, sê forte. Tem coragem e confia no Senhor” (Sl 26,4.8). Aqui podemos ver toda a vida de Jesus que foi uma procura, cheia de confiança, do rosto de Deus, e uma entrega incondicional nas mãos do Pai.
Vivemos a espera dessa realização plena do encontro com o Senhor e ninguém mais que João Batista viveu a espera, consagrando sua vida “a preparar os caminhos do Senhor”. João Batista é a testemunha da esperança que vai atingir o seu fim. Com o seu nascimento é marcado o fim do Antigo Testamento. Ele é esta voz que grita, anuncia e adverte. Uma voz forte, viril, que fala através das palavras, dos atos, dos testemunhos de João Batista.
Alguns autores o definem como o primeiro monge. E poderíamos acrescentar que sua vestimenta de pelos de camelo e o cinto de couro em volta dos rins, foi o primeiro hábito monástico. E como alimento gafanhotos e mel silvestre. Sua vida retirada no deserto de Judá faz com que João reúna em si todas as disposições essenciais do cristão, do verdadeiro monge: despojamento, simplicidade, solidão. Cumpre à letra as exigências, retirando-se efetivamente do mundo.
Seu papel de favorecer o estabelecimento do reino de Cristo não é semelhante ao de nossa condição de batizados? Sua alegria imensa, fundada sobre a esperança de que Deus cumprirá suas promessas, não nos deveria alimentar? Sabemos, sobretudo pelas passagens evangélicas, que ele aponta o Cordeiro, o próprio Filho de Deus vindo imolar-se para o resgate dos homens.
Diz Guardini que “ser profeta é dizer a seu tempo, contra seu tempo, o que Deus ordena dizer”. Essa promessa já se encontra no belo cântico de Zacarias que cantamos todos os dias em Laudes (Benedictus).
A vida de João Batista, seus atos, suas palavras, nos provam que realizou esta vocação. Descobrimos nele: o “consagrado” e o “luminoso”, o “testemunho da alegria” o “apagado”.
«É bom — afirmou o Papa Francisco em sua homilia no dia da festa da Natividade de São João Batista— pensar na vocação do cristão deste modo», como a vida de João Batista. De facto, «um cristão não anuncia a si mesmo, anuncia outro, prepara o caminho para outro: para o Senhor». Além disso «deve saber discernir, saber discernir a verdade do que parece verdade e não é: homem de discernimento». Por fim «deve ser um homem que saiba abaixar-se para que o Senhor cresça, no coração e na alma dos outros».
Que bom, querida Leidiane, termos hoje nessa festa, a sua entrada no noviciado, tendo como pano de fundo a beleza dessa liturgia, tendo João Batista como testemunha da única alegria. Ele que tudo sacrificou porque tem no coração uma beatitude que Deus nele colocou. Deus o inundou com sua luz e as outras alegrias, as outras satisfações que encontraria numa vida confortável não acham mais lugar nele, assim como aconteceu com você. Desejoso de conservar inteira a união com seu Deus, ele rejeita sem pesar tudo o que não lhe é diretamente ligado. Eis o seu segredo… Eis porque se retira no deserto querendo guardar intacta a alegria que possui. Para que lhe serviriam o dinheiro, as belas vestes, pois sua riqueza não se encontra na fidelidade ao Senhor Todo Poderoso e Justo?
Eis aí um belo programa para o tempo tão rico do Noviciado! Transbordar de alegria pelo seguimento do Cordeiro. A lei do Evangelho se apoia sobre a caridade, o serviço de amor que se vive nessa Escola que é o Mosteiro. A monja que responde ao convite do Senhor encontra aí sua alegria. O Senhor dá em abundância e quanto menos colocarmos obstáculo à recepção, mas Ele aumenta sua alegria.
Humildade, alegria, serviço, despojamento, entrega.
Hoje, você recebe a veste nova e o nome novo que vão lhe revestir, também, de uma nova vida abraçada, de uma graça especial. A veste, como pertença a Cristo, inserida nessa comunidade monástica beneditina, nesse Mosteiro, ao qual o Senhor lhe conduziu. E o nome novo com sua nova missão. Na Bíblia, o nome é algo dinâmico, é um programa de vida. A troca de nome implica uma missão que deve ser realizada pela pessoa (Gen, 17,5; Jo. 1,42).
Um nome novo: uma aventura que começa; uma história a ser construída.
O nome é ponto de partida e de chegada na relação com Deus.
Para isso será preciso você também cantar com sua vida um cântico novo. O canto é uma manifestação de alegria e, se examinarmos bem, é uma expressão de amor. Quem, portanto, aprendeu a amar a vida nova, aprendeu também a cantar o canto novo.
São João Batista estremeceu no ventre de sua mãe quando da proximidade do Salvador, enchendo seu coração da mais profunda alegria.
Maria, que soube descobrir a novidade trazida por Jesus, cantava: «o meu espírito se alegra» (Lc 1, 47) e o próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo» (Lc 10, 21). Quando Ele passava, «a multidão alegrava-se» (Lc 13, 17). Depois da sua ressurreição, onde chegavam os discípulos, havia grande alegria (cf. At 8, 8). Jesus assegurou-nos: «vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria! (...) eu hei de ver-vos de novo! Então o vosso coração há de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16, 20.22). «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11).
Não podermos esquecer de mencionar o quanto o nosso Papa Francisco tem nos exortado para alegria com os seus documentos: “Evangelii Gaudium” (2013); “Amoris Laetitia” (2016); e “Gaudete et Exultate” (2018).
Temos o testemunho de inúmeros mártires que caminharam para o martírio com cantos e orações. É, pois, pelo canto novo que devemos reconhecer o que é a vida nova. Nada nos pode impedir de cantar esse canto novo.
Santo Agostinho tão bem exprime essa realidade quando diz: “O louvor de quem canta é o próprio cantor”. Cantar com a própria vida, com as obras de caridade, com o serviço de amor.
Que à luz do Espírito Santo, protegida por esses grandes santos e santas, você possa aprender cada dia a cantar esse canto novo, a se tornar, pela graça de Deus, o louvor da sua glória. Amém!