LEVANTA-TE E VEM!
Crônica de Madre Doroteia Rondon Amarante,OSB
*26-02-1916 +07-06-2015


LEVANTA-TE E VEM!

Esta era uma das muitas pérolas da Sagrada Escritura que Me. Dorotéia guardava em seu coração e que ilustrou com sugestivo desenho em um cartão: uma pombinha olhando para o alto, atenta ao chamado “levanta-te e vem!” Essa pomba, pronta a alçar vôo, revela-nos, um pouco, a trajetória da vida de nossa amada Abadessa.

Pepée, apelido que a acompanhou durante toda a sua vida, entre seus familiares, nasceu em Paris, para onde seu pai, Major Emanuel do Amarante, fora enviado pelo governo do Brasil para servir na Comissão do Ministério de Guerra, ficando junto à Chefia, em Paris. Casara-se em 1913, com Aracy Rondon (a primogênita do Marechal Rondon e sua esposa D. Chiquita) e fora, até então, fiel colaborador do Marechal nas suas heróicas expedições pelos sertões do Brasil. Era dotado de inteligência arguta, tendo cursado com brilhantismo a Escola Militar, grande capacidade de observação e extraordinária atividade. Trabalhara, até casar-se, na Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas. Era o terceiro filho de Manuel Peixoto do Amarante, herói da Guerra do Paraguai, engenheiro-militar, que, com a família, se fixara em Petrópolis, para ministrar aulas de matemática aos três filhos da Princesa Isabel. Com frequência, Emanuel, o futuro pai de nossa Abadessa, acompanhava seu pai (Manuel) e era companheiro de jogos dos Príncipes Pedro, Luiz e Antônio de Orléans e Bragança.

Aracy, a mãe de Pepée, vivera, até o seu casamento, no sadio ambiente de uma família “naturalmente cristã” (embora o pai fosse positivista). Antes do seu casamento, teve a graça de conhecer o Padre Leonel Franca, um santo jesuíta que marcava o Brasil dessa época com sua influência, e a quem Aracy devia seu gosto pelo estudo da doutrina cristã e pela espiritualidade jesuíta. Emanuel e Aracy casaram-se em 1913 e em 1914, partiram para a França. Aí nasceram os dois primeiros filhos, Emanuel, em 1915 (futuro jesuita) e, a 27 de fevereiro de 1916, Mariana Aracy, ou Pepée, como foi apelidada, (“boneca” ou poupée, pepée na linguagem infantil). Em dezembro de 1915, o Major Amarante recebeu ordem de regressar ao Brasil e, assim, só veio conhecer sua filhinha em 1917, quando Pepée já completara um ano! Voltando a servir na Comissão de Linhas Telegráficas, ele instalou a família em Manaus, para estarem mais próximos. Ali nasceu Ruth,em 1918, nossa Irmã Maria Beatriz, monja como Pepée. Como as crianças não se adaptavam ao clima tropical, a família transferiu-se para Nova Friburgo (Estado do Rio), cujo clima era mais frio e onde nasceram as duas últimas filhas do casal, Maria e Beatriz, que vieram completar a felicidade do lar. Pepée ali viveu, até entrar em Santa Maria, aos 19 anos. Esse período foi marcado pela intensa vida cristã de D. Aracy, que sentia a influência dos jesuítas, vizinhos de sua casa e que, por sua parte, irradiava sua vida cristã sobre o ambiente, sobretudo sobre um círculo de jovens, que frequentavam sua casa e se tornaram amigas de Pepée e Ruth. Sob a influência de sua mãe, Pepée também adquiriu muitas qualidades, de grande valia na futura vida de monja: ternura e tenacidade, inclinação para solucionar as dificuldades com o diálogo; aprendeu vários trabalhos de artesanato e frequentou, ao mesmo tempo o Colégio das Irmãs Dorotéias, onde se distinguiu pela inteligência, seu senso de dever e cujos “boletins” dessa ocasião nos revelam um curso brilhante, que ela sempre ocultara, com sua modéstia.

Pepée e seus irmãos, durante as férias que seu pai passava com a família, permaneciam horas junto dele, ouvindo suas narrativas da vida do sertão, desafios e soluções que ele encontrava, os encontros com os índios, etc. Esse aprendizado era intercalado com jogos e travessuras, até que o Senhor colocou sua mão sobre Noel, o primogênito, que devia ser consagrado a Deus, conforme a Escritura e ele entrou no Convento dos Jesuítas.

Aos 13 anos, Pepée foi marcada por um grande sofrimento: o pai, depois de dois anos de ausência, carinhosamente esperado pela família, contraiu uma febre e faleceu, inesperadamente, em Porto Velho (atual capital de Rondônia). Pepée, que tinha grande afinidade com o pai, sentiu profundamente sua morte. Dele herdara intuição, inteligência, amor à Matemática, além de dotes artísticos como o desenho.

Em Friburgo, o clima de silêncio, tão caro à nossa vida monástica, uniu, mais ainda, mãe e filhas. Entre as jovens que as freqüentavam, uma pediu a Dona Aracy que procurasse entrar em contato com algumas famílias religiosas, pois ela se sentia vocacionada e queria conhecer algumas. D. Aracy, tendo escrito a Abadia de Santa Maria, recebeu logo uma resposta e informações sobre nossa vida monástica. A “vocacionada”, infelizmente, não pôde interessar-se pela vida contemplativa, pois o seu diretor não a julgava chamada a esse tipo de vida consagrada. Pepée, ao contrário, aí encontrou a pérola preciosa. Foi, então, passar alguns dias em Santa Maria e sua vocação se firmou. A 30 de janeiro de 1936, acorreu ao “Levanta-te e vem”, que lhe era dirigido, antes de completar 20 anos!

O ambiente que encontrou no Noviciado foi muito acolhedor: o grupo das 7 argentinas aí se achava, recebendo a formação monástica para a fundação do mosteiro argentino. Madre Gertrudes, ao nomear as fundadoras, pensou na jovem monja que professara em 1937 e recebera a consagração das virgens a 15 de agosto de 1940. Por ocasião de sua profissão, Irmã Dorotéia recebera uma carta do Cardeal Leme, Arcebispo do Rio, que parecia profetizar sua caminhada: “Que Soror Dorothea viva muitos anos como verdadeira beneditina e morrerá como santa” (29.07.1937). O grupo argentino, esperado com entusiasmo em sua terra natal, foi confiado a Madre Plácida de Oliveira, como Prioresa e, entre algumas brasileiras, Irmã Dorotéia. Com sua habitual generosidade, Irmã Dorotéia acolheu esse chamado do Senhor “Levanta-te e vem!”, embora lhe custasse muito deixar Santa Maria. Nos anos passados na Argentina, Irmã Dorotéia entregou-se aos muitos trabalhos de uma fundação, e, ao fim de alguns anos, suas forças começaram a declinar. Em face de mais um chamado “Levanta-te e vem”, respondeu corajosamente e voltou ao seu mosteiro de profissão, onde colocou seus talentos a serviço da comunidade: iluminuras, textos caligrafados, estampas, organização de correspondência, cerimonial. Por mais duas vezes, nossa irmã adoeceu, mas recuperou-se e continuou a servir: foi prioresa, mestra das noviças por 10 anos, tendo formado uma geração com seu zelo, sua solicitude e sabedoria; mestra das irmãs conversas, porteira, auxiliar da enfermaria e outros cargos. Tinha grande amor aos nossos retiros e guardou “para o resto da vida” o que ouvira de D. Martinho Michler e de D. Estevão Bettencourt, este último especialmente, que a acompanhou por mais de 50 anos e lhe foi de grande apoio na fundação do mosteiro Nossa Senhora da Paz. Irmã Dorotéia tinha, entre as muitas qualidades, a de “tirar coisas novas e velhas”, da tradição recebida das gerações que a haviam precedido e, do novo sopro do Espírito, vento sempre em movimento. Assim, acolheu com o coração cheio de alegria, o grande acontecimento do século XX: o Concílio Vaticano II!

Como em Santa Maria havia várias irmãs que optavam por conservar o que já tinham, e outras, desejosas de abrir-se ao Concílio, Madre Rosa, com seu espírito de fé, acolheu as nove que se apresentaram para o ajornamento, pressentindo que uma nova fundação estava em gestação: o Mosteiro Nossa Senhora da Paz. As “pacíficas”, isto é, as irmãs do novo mosteiro (da Paz) manifestaram a Madre Rosa o desejo de terem Irmã Dorotéia como Prioresa da fundação. Mais uma vez, soava o convite: “Levanta-te e vem!” e Madre Dorotéia abraçou com a costumeira generosidade o plano de Deus. Conhecendo os dotes que o Senhor concedera a cada “pacífica”, confiou a cada uma, com inteira confiança, as tarefas para o bem da comunidade. Desde o começo da fundação, iniciou o atelier de cerâmica, e, com agudo senso, reconheceu os talentos das jovens que se apresentavam. Em 1975, a Providência colocou em seu caminho um jovem artista, que começava sua luminosa carreira : Cláudio Pastro! Uma fraterna amizade se criou entre eles, tendo por centro a Pessoa do Cristo, a Quem nada antepunham, - e também a Arte, a Liturgia; em suma: a Beleza! Com a orientação de Cláudio, a oficina de cerâmica desenvolveu-se e o mosteiro foi crescendo com a contribuição de cada uma: Irmã Emerenciana, sub-prioresa, assumiu a lavanderia; Ir. Paulina, a hospedaria; Ir. Maria Cruz a cozinha e a celeiraria; Ir. Sílvia, o coro, adaptação dos textos em português às melodias gregorianas; Ir. Regina, a rouparia e as vocações que já acorriam; Ir. Melânia, rubricista e cerimoniária; Ir.Mônica, bibliotecária e Ir. Maria Beatriz, enfermeira. Evidentemente, esses cargos não eram exercidos unicamente por essas responsáveis, pois cada uma ajudava a outra, conforme a necessidade, de modo que tudo era de todas e o meio de subsistência cabia às nove.

Em poucos anos, o mosteiro cresceu e se tornou autônomo. Sua “alma” era a Madre Prioresa, que dava vida ao organismo monástico, injetava vida na comunidade que se desenvolvia, tudo dispunha com clarividência, atendendo ao presente sem deixar de olhar o futuro, propiciando pistas para o desenvolvimento em todos os campos: foi aumentando a biblioteca, desejando ter a coleção Sources Chrétiennes para o estudo dos Padres da Igreja; conseguiu a assinatura de várias revistas de valor, livros sobre a Sagrada Escritura, sobre o monaquismo, liturgia; máquinas para a lavanderia, rouparia, cerâmica,etc.

Cada irmã se revezava assumindo a formação da comunidade, dando aulas de alguma matéria e preparando-se para esse encargo com empenho. Embora possuidora de sólida e rica formação monástica, sempre soube ver, ao longe, o futuro, tendo um verdadeiro dom para se adaptar às novas gerações.

Eleita Abadessa, Madre Dorotéia recebeu a Bênção Abacial do Sr. Cardeal Paulo Evaristo Arns, aos 9 de setembro de 1983, escolhendo como lema a frase de Agostinho: “Amoris officium pascere” – “Apascentar é serviço de amor”. O amor era, de fato, o “segredo” da sua sincera comunhão com todas, podendo trabalhar com todas e com cada uma, na mais inteira confiança.

Sendo impossível esboçar a fisionomia completa de nossa Abadessa, remetemos para a sua futura biografia, tão desejada por muitos amigos. Digamos apenas que era dotada de muita sensibilidade artística e deixava em tudo o que fazia, um traço de beleza, transbordamento da Beleza interior que nela habitava e que alimentava com profunda vida de oração e lectio. Com invejável coragem e força consumiu-se em sua missão de “vices Christi” (o Abade ocupa, no mosteiro, o lugar de Cristo) e foi sendo, por esse meio, a Ele configurada. Suas obras artísticas, suas conferências espirituais, seus estudos, seus pincéis e esquadros cediam lugar à Mão do Senhor, que trabalhava na SUA obra de arte. A paz, nos seus últimos anos na enfermaria, transparecia em seu rosto e era maior que a cruz que pesava em seu corpo. Sua cela era, de fato, “beata visio pacis”, uma beata visão de paz. Dependia cada vez mais de suas cuidadoras e, nos últimos anos, nem mesmo podia falar, comunicando-se apenas pelo olhar. Como uma chama que se extingue aos poucos, ela se foi “transferindo” para a vida verdadeiramente feliz, ouvindo o definitivo convite: “Levanta-te e vem!” Ela continua no meio de nós, não só guardada na terra, com as monjas que a precederam, mas como uma lembrança do que ela sempre foi para nós: um convite para subir!

LEVANTA-TE E VEM!
Mosteiro Nossa Senhora da Paz 2015