CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA, EXPOSIÇÃO, CONFERÊNCIA
Homenagem a Cláudio Pastro no 1º aniversário de sua páscoa


“O Artífice do Belo foi encontrar-se com a Eterna Beleza.”
Na manhã ensolarada da quinta-feira, 19 de outubro, às 8h45, aconteceu a celebração eucarística pelo 1º aniversário da páscoa de nosso saudoso e querido irmão Cláudio Pastro (Ir.Martinho,obl.OSB), presidida por Pe.Carlos Alberto Contieri,SJ, reitor do Pateo do Collegio, em São Paulo, e concelebrada por Pe.Carlos Galhardo, salesiano, e Pe.Filipe Mirapalheta, do clero da Diocese de Novo Hamburgo (RS).
Alguns oblatos e amigos participaram da celebração, em que Pe.Contieri, além de comentar a Liturgia do dia (Leituras: Rm 3,21-30 e Lc 11,47-54), fez memória de Irmão Martinho, destacando a nossa fé e esperança na vida eterna.
Abaixo segue a homilia na íntegra.

Logo após a Eucaristia e Oração de Terça, dirigimo-nos ao local da sepultura de Cláudio, onde foi abençoada uma belíssima Nossa Senhora Aparecida em azulejo, obra do artista. Em sua lápide, cantamos a Sequência Pascal e o Salmo 150, seguidos da bênção proferida por Pe.Contieri.
Que todas as belezas realizadas por Cláudio através de sua arte continuem a elevar ainda mais nossos corações para Deus!

Em Palavra da Abadessa, leia a conferência de Madre Martha Lúcia, proferida no II Seminário de Cultura Beneditina, realizado no Mosteiro de São Bento de São Paulo, dias 20 e 21 de outubro, em que destaca aspectos da vida e arte de Cláudio.

Na portaria de nosso Mosteiro, acontece também até o final de novembro, a Exposição Fotográfica do artista, organizada pelo fotógrafo Fábio Colombini. Veja algumas fotos! Fábio é coautor dos livros Aparecida e Guia do Santuário Nacional de Aparecida (agora em nova edição).

TRANSCRIÇÃO DA HOMILIA DE PE. CARLOS ALBERTO CONTIERI, SJ
CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA NO 1º ANIVERSÁRIO DA PÁSCOA DE CLÁUDIO PASTRO (IR. MARTINHO, OBL.OSB)

A Carta de São Paulo aos Romanos não é bem uma carta. Na verdade, é um tratado de teologia sobre a graça, sobre a salvação ou o que é o mesmo, sobre a justificação e a afirmação fundamental que nós ouvimos, se pudéssemos resumir, é essa: “Não é a lei que salva. Mas o que salva é a fé em Jesus Cristo.” Nós não estamos mais, dirá São Paulo, sobre o regime da lei, mas sobre o regime da graça. O que salva é a fé, mas é importante que nós esclareçamos, por que nós poderíamos colocar em nós a causa de nossa salvação, ao afirmar que é a fé que salva, que é a nossa adesão a Cristo ou os nossos méritos que nos salvam. Mas quando S. Paulo diz: “É a fé que salva e não a lei”, S. Paulo certamente tem um conceito de fé capaz de refulgir a nossa mentalidade de que é por nossa causa, que seria essa - que é em razão de nossa fé ou do acento em nós mesmos, do sujeito que crê -, a causa de nossa própria salvação. O que São Paulo na verdade nos quer fazer compreender é que a fé é a abertura para receber a salvação como um dom, dom que, portanto, não consequência de nossos méritos, do bem que nós fazemos para essa ou para outra pessoa, a fé é essa abertura ao dom de Deus que faz com que nós reconheçamos que a salvação é um dom oferecido, como explicitará S. Paulo, não a essa nem àquela pessoa, mas de maneira indistinta à humanidade inteira. Como diz S. Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, “Deus não faz distinção de pessoas” e o Papa Francisco em sua Encíclica vai dizer: “Ninguém está excluído da alegria da salvação.” Ninguém. Nós quereríamos talvez, excluirmos tantos, não é, claro que nós não mesmos, não, porque nós sempre somos merecedores desta graça, mas a outros tantos a gente diz, seria bom a gente decretar o fim do purgatório, ou seria bom ficar no purgatório, por uns tempos, no mínimo a gente ofereceria isso às pessoas, mas Deus não é assim. Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, os meus caminhos não são os vossos caminhos. A misericórdia de Deus nos desconcerta, nos surpreende e ela faz com que nós nos coloquemos em nosso lugar. Não é por nossos méritos que nós somos salvos. Somos salvos pela graça de Deus, pelos méritos de Cristo, a salvação não é resultado do que nós fazemos, a salvação é um dom da bondade misericordiosa de Deus, do amor transbordante de Deus pela humanidade. Essa é a primeira coisa. O Evangelho vai dizer que Jesus é um homem de coragem. Para dizer a verdade, é preciso ter coragem. Para ser amante da verdade é preciso permitir que o Cristo viva em nós, no nosso caso de cristãos, e que nós desejemos que a nossa vida seja conduzida pelo sopro do Espírito. Jesus é o homem da verdade, o que exige dele uma coragem, uma coragem de enfrentar, inclusive o drama de sua própria vida, de enfrentar os seus opositores, e aos fariseus, no texto que nós acabamos de ouvir, Jesus vai dizer, e aos Mestres da Lei, sobretudo, vocês tomaram a chave da ciência, tomaram, ela não lhes foi dada, vocês tomaram, ela não lhes foi dada. Portanto, o mal como os Mestres da Lei interpretam a Lei, é isso que Jesus está dizendo, está equivocado, porque a interpretação da lei feita pelos Mestres da Lei, não entra no espírito da Lei, pondo de lado a misericórdia, a bondade de Deus. No cap. 7 do Evangelho segundo São Marcos, Jesus vai dizer aos fariseus e aos Mestres da Lei: “Vós anulais os mandamentos de Deus, apegando-vos à vossa tradição.” Com isso, eles fecham as portas para tantas pessoas. Fecham as portas da salvação. Fecham as portas da graça. E ao invés da vida de fé em Deus ser vivida na leveza, ela é vivida como um peso. No outro trecho do Evangelho, Jesus dirá: “Vós amarrais sob os ombros das pessoas fardos pesados, mas vós não os empurrais sequer com um dedo.” A vida de fé, a vida cristã deveria ser leve. O que torna a nossa vida leve, o que faz com que em nós não haja amargura é o próprio Cristo que age em nós e que nos liberta de tantas amarguras. Nós estamos celebrando hoje aqui neste mosteiro um ano da páscoa eterna do Cláudio, que está sepultado a poucos metros de onde nós estamos reunidos. Certamente, o Cláudio era um homem assim, corajoso. Corajoso primeiro pela sua arte, a sua arte é um testemunho de sua coragem, de sua coragem. De sua coragem de poder contemplar, meditar e traduzir nos seus traços o mistério do amor e da misericórdia de Deus. Eu não sei se eu me engano, mas eu nunca vi na arte do Cláudio, nenhuma representação do inferno, não, isso mostra que ele compreendeu muito bem que a teologia cristã, ele compreendia muito bem o Evangelho, e talvez, se ele tenha representado, desconheço, não é, eu desconheço, porque nas conversas entre nós, a gente sempre se lembrava da frase de von Balthazar, quando perguntado se ele cria que o inferno existia. Ele dizia: “Eu creio em Deus, mas se o inferno existir, ele está vazio”. Portanto, o inferno não é digno de representação. E é verdade! Então, o Cláudio era um homem corajoso. Um homem corajoso que traduziu a sua coragem, na sua vida, entregue a Deus através da arte. Há pessoas que quando partem fazem falta. Há outras que fazem muita falta. Porque a gente não vê continuidade naquilo que fazia tão bem. Cláudio era um homem corajoso, portanto, profundamente unido a Cristo. Tantas vezes, ele mesmo dizia que a sua arte era fruto exatamente da ação de Cristo em sua vida. Era inspiração. Era dom, portanto, ele não tinha, uma frase semelhante que São Paulo utiliza em suas cartas, ele não tinha do que se gloriar. Eu me recordo que ele me dizia e certamente disse isso a tantas pessoas, mas é ocasião aqui, eu me recordo uma vez em que ele contava a experiência dos longos dias que ele passou em coma no hospital e que ao voltar do coma ele só se lembrava de que na sua cabeça passava uma e outra imagem de Cristo. E que quando ele saiu do coma, a sua mãe entrou no quarto, acho que com a sua irmã, ele disse: “Meu Deus, o que é que estou fazendo aqui?” Não é verdade, porque era tão boa aquela contemplação, que ter voltado a pisar no nosso pó e a nossa terra, parecia algo absolutamente estranho, mas ele aprendeu certamente na sua vida, a dizer ou a fazer dessa experiência que somente estando inserido neste mundo é que a gente pode contemplar Deus como Deus é. E enquanto nós somos peregrinos neste mundo ainda que como num espelho, a gente pode compreender a face misericordiosa de Deus. Cláudio era corajoso como o Cristo, mas não só por defender a Igreja, por defender o espaço litúrgico, por defender a dignidade da pessoa. Eu falava com a Madre no sábado passado no Pateo do Collegio em que nós nos encontramos no jardim, que olhando para Aparecida, quem ganhou com Aparecida, foram os romeiros de lá. Porque a obra do Cláudio em Aparecida dá dignidade a muitas pessoas maltratadas pela vida, que lá vão. A arte dá às pessoas que lá vão, o seu real valor, porque aquela basílica não era para o Cláudio, porque certamente quando o Cláudio pintava, era nas pessoas, que ele pensava. Se ele tinha consciência ou não disso, ele deu dignidade à vida das pessoas. Os espaços em que ele interviu, para fazer, para corrigir, para refazer, as pessoas de fato que lá iam, podiam se sentir dignas e se sentiam dignas pelo modo mesmo como as coisas estavam dispostas. Você entra aqui nesta capela, a gente não precisa de nenhum floreio, de nenhum enfeite, não é verdade. Não precisa de nada para que o coração seja elevado. A concepção do Cláudio era esta. Eu me lembro porque essa frase ele repetiu várias vezes quando fazia a reforma da igreja do Pateo do Collegio. “As pessoas precisam entrar aqui e se sentir rezadas.” Essa era a frase! Essa era a frase! Toda a sua arte, todo o seu trabalho, toda a sua vida, que era fruto dessa contemplação do mistério de Deus, certamente estava em função disso, da elevação do coração das pessoas a Deus, que não nos abstrai deste mundo, mas que faz com que nós reconheçamos que tudo é dom, inclusive a nossa vida e a nossa salvação. Eu estava me lembrando, vindo pra cá de carro, de um livro intitulado “Sob Ombros de Gigantes”. Não sei se chegou à biblioteca deste mosteiro, se não chegou, faço questão de fazer chegar, e que nós traduzimos e que são textos escolhidos dos Padres da Igreja. Na introdução deste livro, diz: “Há pessoas, daí o título do livro, que colocam a gente sob os ombros, para que a gente possa ver mais longe” -, há pessoas que colocam a gente sob os ombros para que nós possamos ver mais longe. Evidentemente que se referia esse texto aos Padres da Igreja que são esses gigantes da nossa fé, que nos ajudam a ver mais longe, onde os olhos talvez, se nós nos mantivéssemos na nossa estatura, nossos olhos não poderiam alcançar. Talvez com a sua arte, o que estamos falando do Cláudio, ele nos coloca nos ombros também, para que a gente possa ver mais longe aquilo que por nós mesmos não poderíamos. Nós precisamos dos ombros dos outros, nós precisamos dos outros para ver mais longe. Nós precisamos da coragem, da coragem de carregar outros nos ombros, mas ao mesmo tempo da coragem de ser carregados para ver mais longe. Vamos agradecer a Deus sobretudo nesta celebração da Eucaristia, enquanto as maritacas disputam conosco as nossas vozes (risos), vamos agradecer a Deus pela vida nova do Cláudio, agradecer a Deus porque nós estamos reunidos aqui nesta manhã, agradecer a Deus porque Deus nos abraça com o seu amor, com a sua misericórdia sem que nós o mereçamos. Nós sempre estamos e estaremos aquém do amor, da bondade, da graça de Deus. Agradecer a Deus porque ele nos oferece a sua salvação. Lembra disso: a salvação é algo oferecido, um dom oferecido que a gente aceita viver sob esse regime da graça, é nossa, mas, essa graça faz com que nós sejamos a imagem do Cristo, pessoas amantes da verdade, ouvintes da Palavra, e não pessoas que tomaram para si a chave arrogante da sabedoria, da ciência, mas que tomaram para si a própria imagem do Cristo que nos faz conhecer o que a ciência não nos pode dar, que é o mistério de Deus. Agradecendo a Deus pela vida nova do Cláudio, peçamos por nós, para que possamos crer na ressurreição de Cristo: condição de nós crermos na ressurreição dos que partiram desta vida e na nossa própria ressurreição. Tem alegria maior do que saber que a vida não se extingue num retângulo de sete palmos de profundidade? Nós temos a vida transfigurada pela graça de Cristo que ressuscitou vencendo o mal e a morte e nos fez herdeiros da sua própria graça. Não, não tem graça nenhuma, sem isso a nossa vida é sem sentido e a nossa consagração absolutamente vazia, um passatempo. Que Deus nos dê a graça dessa alegria de crer na ressurreição de Cristo e de vivermos não sob o regime da Lei, mas sob o regime da graça. Desculpe-me fazer só um comentário e eu acabo a minha homilia. Nós corremos muito o risco hoje na Igreja, de sermos prisioneiros da letra e esquecermos a vida que vem de Cristo, de sermos prisioneiros das regras e nos esquecermos da misericórdia e do amor. O Papa Francisco no encerramento do Sínodo sobre o Matrimônio, dizia isso: “Nós aprendemos neste Sínodo que os verdadeiros adoradores da doutrina não são aqueles que estão apegados à Lei, mas os que se preocupam com a vida.” A vida cristã nos faz homens e mulheres livres. O regime da lei pesa, amargura, entristece, a graça nos redime. É preciso nós não nos esquecermos do Evangelho. Quando o Evangelho é esquecido, nós precisamos das normas para poder sustentar a nossa fé. Isso é um Cristianismo de fachada! Que Deus nos conceda que nós não nos deixemos aprisionar pelas normas que tiram a vida, mas que o Senhor nos dê a graça de fato de sermos a imagem de Cristo, profundamente livres para viver e testemunhar o Evangelho da vida.