PÁSCOA DE NOSSA QUERIDA IR.MARIA BEATRIZ Leia a crônica sobre sua vida

Adormeceu no Senhor nossa na noite de 19 de julho de 2016, nossa querida Ir.Maria Beatriz Rondon Amarante,osb, aos 98 anos de idade e 63 anos de profissão monástica. A missa de corpo presente, celebrada pelo por D.Abade Filipe da Silva, abade presidente da Congregação Beneditina do Brasil, durante visita canônica em nosso mosteiro, aconteceu às 15h30 na igreja abacial, seguida do sepultamento. Estiveram presentes sacerdotes, religiosas, amigos e familiares, em união com nossa comunidade. Agardecemos a presença fraterna de todos. Leia abaixo a crônica de nossa querida irmã.
Em Palavra da Abadessa a alocução de nossa Madre Martha Lúcia após a páscoa de Ir.Maria Beatriz, proferida à comunidade em 12 de agosto de 2016.

CRÔNICA
Nossa Irmã Maria Beatriz recebeu, ao nascer, o nome de Ruth Aracy. Foi a terceira filha do casal Major Emanuel do Amarante e Aracy Rondon, a primogênita do Marechal Rondon e sua esposa Dona Chiquita. O Major e Aracy casaram-se em 1913 e, logo após o casamento, ele foi enviado pelo Governo do Brasil para a França, para servir na comissão do Ministério da Guerra; ele, até então, fora fiel colaborador do Marechal Rondon nas suas heroicas expedições pelo interior do Brasil. Em Paris, nasceram-lhes os dois primeiros filhos, Emanuel e Mariana Aracy. Em 1915, o Major recebeu ordem de voltar ao Brasil vindo a conhecer sua filhinha Mariana, nascida em 1916, só quando a esposa regressou ao Brasil com seus dois filhinhos. O Major instalou a família em Manaus, no Amazonas, para maior facilidade de rever a esposa e os filhos, pois continuava servindo nas expedições do sogro. Aí, a 24 de março de 1918 nasceu Ruth Aracy, a futura Irmã Maria Beatriz. A inclemência do clima, porém, sendo prejudicial às crianças, o Major levou a família para Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, onde o clima era propício aos filhos.
Na infância, Ruth era muito apegada aos dois irmãos, que já tinham seus apelidos, Emanuel era Noel e Mariana, Pepée. Sempre pronta a satisfazer os irmãos, com frequência trazia os belos cachinhos de sua cabeça com carrapichos, jogados, por eles, que tinham grande criatividade em suas travessuras. Ruth tinha um temperamento fácil, delicado e terno e mostrava grande amor aos animais: sapos, cães, passarinhos e outras aves. Tinha também um bom ouvido musical e gostava de cantar as músicas que ouvia na igreja, que frequentava com sua mãe e Pepée.
Uma das grandes alegrias das três crianças (Noel, Pepée e Ruth) era a estadia do pai em Friburgo, em férias. Permaneciam horas ouvindo-o contar a vida que levava no sertão, entre os índios; como o Major era engenheiro desenvolvia suas qualidades e conhecimentos nas dificuldades que a expedição enfrentava nesse Brasil quase desconhecido. As crianças o escutavam avidamente. Tais conhecimentos aprendidos facilmente, foram aos três de grande proveito na vida que abraçaram, posteriormente.
A felicidade dessa família foi acrescida com o nascimento de mais duas filhas: Maria e Beatriz, em Nova Friburgo. Aí, Pepée e Ruth frequentaram o colégio das Dorotéias com excelentes notas. Ruth não deu por terminado o seu currículo escolar e, em 1935, obteve o diploma de Magistério Primário na escola Nossa Senhora das Dores de Friburgo.
Os anos transcorriam serenos, até que, inesperadamente, chega à família a notícia da morte do pai, em pleno sertão. A fé de Dona Aracy e das filhas permitiu-lhes refazerem-se do golpe e enfrentar as muitas dificuldades. Ruth, com 17 anos vai trabalhar no interior do Estado do Rio para ajudar a mãe. Em 1936, com a entrada de Pepée na Abadia de Santa Maria e Noel no convento dos jesuítas, Ruth se torna o braço direito de sua mãe e, como Maria se casa muito jovem, Ruth procura ser a companheira de Beatriz, a caçula. Essa, jovem, alegre e bonita, tem seu círculo de amigas com as quais frequenta a sociedade e Ruth a acompanha, mantendo acesa no coração a chama do seu ideal de vida religiosa. E continua também seus estudos: em 1941, obtem, no Rio, o diploma de normalista especializada em Educação física e Desportos, na Escola Nacional de Educação física. Ela se divertia contando-nos que, pouco dotada para esportes, receava não ser aprovada em natação, mas, no dia da prova, suas colegas a acompanharam com tamanha “torcida” que, encorajada, saiu-se muito bem e obteve o desejado diploma; nos anos seguintes, consegue o de Visitadora Social (1943), o de Monitora Agrícola (1944) e, em 1948, terminou o curso de Enfermagem na Escola Ana Nery. Como enfermeira chegou a ser diretora de um Hospital para tuberculosos. Atravessando todas as dificuldades com coragem, conservou seu temperamento alegre e seu riso fácil.
Em 1951, ela pôde enfim atender ao chamado do Senhor que a queria toda para si e entrou em Santa Maria, onde sua irmã mais velha a precedera e se tornara Ir. Dorotéia. No Noviciado encontrou um grupo jovem e numeroso; ao qual logo se entrosou e seguiu os primeiros anos de vida monástica entregue à sua formação e aos vários trabalhos para os quais fora nomeada. Como era grande o número de noviças, Madre Rosa, a Abadessa, separava-o em grupos para a profissão e, assim, ir. Maria Beatriz com ir. Maria Teresa A. Lima e ir. Prisca Jardim, chegará à Profissão solene e Consagração virginal em 10.2.1956.
Com o desejo inato de doação, foi como enfermeira que ela encontrou o campo propício para se doar. Foi leal, incansável como, anteriormente, o fora como auxiliar de sacristia, numa época em que a sacristia, em reforma, exigia dela uma dedicação sem limites.
Em Nossa Senhora da Paz, continuou sempre pronta para tudo e qualquer trabalho; animada, sempre jovial e feliz, trabalhou com alegria como enfermeira, responsável pela fabricação de bricelets e também dedicou-se aos trabalhos da cerâmica.
Em 1974 com o Concílio e suas graças de renovação, também em Santa Maria um grupo de monjas sentiu o chamado à renovação. Com a aprovação e benção de sua Abadessa, Madre Rosa de Queiroz Ferreira, nove monjas, entre as quais ir. Maria Beatriz, assumiram os trabalhos de uma fundação, a quarta da Abadia de Santa Maria. Com sua disponibilidade de sempre, ela se entregou a todos os trabalhos e, a 24. 03.1973, no seu aniversário de nascimento, assistiu com alegria a colocação da primeira pedra de Nossa Senhora da Paz. No ano seguinte, 1974, fez parte das nove fundadoras na inauguração da nova casa “onda se busca a Deus”. As dificuldades foram muitas, mas sob a direção da Prioresa Madre Dorotéia entregavam-se corajosamente à nova vida na casa de Deus. Chegavam às primeiras vocações e crescia o edifício material... Desejosas de ter meios próprios para sua subsistência, em junho desse ano de 1974, ir. Maria Beatriz foi enviada ao Mosteiro da Virgem, em Petrópolis (RJ) para aprender a fabricação dos bricelets, que pareciam ser uma fonte de renda mais estável para a comunidade. Outras fontes de renda foram tentadas nesses primeiros anos, com muito entusiasmo das fundadoras, e a vida foi-se estabilizando.
Abençoada, pelo Cardeal D.Paulo E. Arns, em 1975, uma oficina de cerâmica foi começada. Com a sábia orientação de Cláudio Pastro, amigo e benfeitor desde as primeiras horas, ela se firmou e é, ainda hoje, um meio de subsistência da comunidade. Ir. Maria Beatriz, com sua habitual doação, foi um elemento importante dessa oficina. Conservando também o cargo de enfermeira; era chamada até para tratar dos inúmeros passarinhos que, batendo de encontro com as janelas e portas de vidro, caiam no terreno. Era para ela uma festa, depois de “assistir” os feridos, vê-los levantar voo.
Em Nossa Senhora da Paz, nossa irmã comemorou seus jubileus de profissão: de prata, em 1978; de ouro, em 2003 e o de diamante em 2013. No de prata causou-lhe grande alegria a visita do Cardeal Arns que, sabendo da vinda de D. Aracy, mãe da jubilar, fizera questão de vir ao Mosteiro para abençoar nossa irmã e encontrar-se com D.Aracy, com quem anteriormente, trabalhara vários anos em Petrópolis. Ele entra na clausura, em companhia de D.Aracy e de Beatriz, sua filha mais jovem.
Ir. Maria Beatriz, apesar das dificuldades de sua saúde, guardou, até o fim, seu amor aos passarinhos, que eram numerosos, no jardim do centro. Como a janela da cela de nossa irmã abria-se para ele, ir. Maria Beatriz se distraía jogando pedacinhos de pão para eles, vendo-os brigar pelos pedacinhos maiores. Enquanto a saúde lhe permitiu, ela ia aos jardins, apoiada em sua bengala, para colher as flores e levá-las para a cela. Mais de uma vez, levou um tombo nesse “trabalho”, mas como havia sempre uma irmã na vizinhança, era socorrida e mantinha na mão o buquê colhido.
Agravando-se suas limitações e a dificuldade de andar, a Madre quis que uma monja mais jovem a auxiliasse, e ela aceitou, agradecida. Apesar das dificuldades, esforçava-se por estar presente ao Ofício Divino, às reuniões comunitárias, às conferências da Madre as sexta-feira feiras, aos parlatórios e aos recreios, onde, a pedido da comunidade cantava as canções de sua infância e juventude, alegrando-se com os aplausos que recebia.
Havia algum tempo que o estado de sua saúde nos inquietava porque fora diagnosticado um prolapso intestinal em fase avançada e a necessidade de uma cirurgia, se impunha, embora com risco. A competência de um médico excelente e as orações da Madre e de toda a comunidade afastaram as dúvidas e foi marcada a cirurgia no Hospital Santa Virgínia (no Brás) São Paulo, no dia 12 de julho. Na véspera, Solenidade de Nosso Pai São Bento, ir Maria Beatriz e nossas outras fundadoras (Madre Regina, ir. Mônica, e ir. Maria) receberam mais uma vez a Unção dos Enfermos na Missa, concelebrada por dois sacerdotes amigos. Graça a Deus, no próprio dia 12, tivemos a notícia do êxito da cirurgia e nossa irmã foi para a UTI (24 horas) por precaução, devido sua avançada idade. Irmã Emanuela, que, havia meses, se desvelava por ir. Maria Beatriz, foi com a Madre até o Hospital e aí permaneceu, na hospedaria das Irmãs do Hospital. No dia seguinte, 13, ir Maria Beatriz saiu da UTI e foi para o quarto 213 do Hospital, no final da tarde; ir Emanuela ficou com ela no quarto, como acompanhante. Tendo ido visitá-la depois, a Madre trouxe muito boas notícias: ir. Maria Beatriz já pudera alimentar-se com chá e um pouco de torradas. Já se pensava na sua volta para o Mosteiro, e ela pedia várias vezes que a trouxessem. Como nossa Visita Canônica se abriria no dia 17, ir. Emanuela, que fora substituída como acompanhante por ir. Maria Letícia, voltou para o Mosteiro. Sabendo que ir. Maria Beatriz voltara a passar mal, e estava na UTI, nossa Madre, que iria buscar no aeroporto nosso Visitador, D. Filipe da Silva, seguiu para o Hospital e Ir. Clara, então, o foi buscar. Nossa doente estando na UTI, a Madre pôde voltar para o Mosteiro com a ir. Maria Letícia, trazendo esperanças, pois, percebendo a presença da Madre junto dela, ir. Maria Beatriz apertou-lhe a mão, sorrindo, serena e consciente.
Assim, a Visita Canônica se abre, com o Abade Visitador e a Covisitadora, Madre Estefânia Vieira, Abadessa emérita da Abadia Nossa Senhora das Graças. Nesse dia ir. Maria Beatriz, na UTI, recebeu várias visitas e a presença de um sobrinho querido, Bernardo, filho de sua irmã Beatriz, foi um consolo para ambos, pois Bernardo telefonava diariamente para ter notícias. Nosso irmão D.Guilherme Pinto, do Mosteiro de São Paulo, foi também visitá-la e lhe deu a Unção dos Enfermos; na véspera, ela a recebera também do Capelão do Hospital. À tarde, soubemos que ir. Maria Beatriz estava com vários aparelhos na UTI, sedada, em estado muito grave. A comunidade, em oração, se preparava para acolher a chegada do Senhor em busca nossa irmã. Após cada hora canônica, rezamos o versículo, “Maria, mãe da graça”, acompanhando nossa doente. Enquanto esse quadro de espera da irmã perdurava, várias irmãs vão ao Hospital e, no Mosteiro a Visita Canônica continuava. À noite do dia 19, quando a Madre acabava de se recolher, recebeu um telefonema do Hospital comunicando que o médico pedia sua presença imediata. Eram 23:30. E pressentindo que nossa irmã partira com o Senhor para a feliz e eterna vida partiu, em companhia de ir. Clara, para o Hospital. Aí encontraram o corpo de ir. Maria Beatriz em uma sala, velado por uma religiosa do Hospital e logo se dirigiram a uma funerária próxima para encomendar o caixão. Voltando ao Hospital, revestiram nossa irmã com as vestes monásticas e ficaram em oração até a chegada do carro funerário. Saindo do Hospital para o Mosteiro, aí encontraram várias irmãs à espera e o corpo foi levado para a Sala Capitular para o velório. Aí foram cantadas as Laudes e Terça, do Ofício dos defuntos.
Tendo sido comunicada a páscoa de nossa querida irmã, muitos amigos, às 8:30 começaram a chegar e entre eles, nosso caro irmão D.Guilherme Pinto, do Mosteiro de São Paulo, grande amigo de nossa irmã Maria Beatriz, que ficou junto dela, rezando,comovido, até a hora das exéquias. Às 11:00, o corpo foi transladado para o parlatório de conferências, para que mais facilmente os amigos pudessem velar e orar. Beatriz, irmã de nossa falecida, logo avisada, veio do Rio de avião e, com seu filho Bernardo, aqui chegou cerca das 14:00. A Visita Canônica continuava, discretamente, com o atendimento das irmãs. Às 15:30, ir Maria Beatriz é transladada, acompanhada pela comunidade, para nossa igreja,onde, foi celebrada a missa de corpo presente por D.Abade Felipe. D.Guilherme e D.Gregório do Mosteiro de São Paulo. A procissão para o cemitério foi muito bela: trazíamos uma vela pequenina na mão e o canto foi muito sereno e cheio de paz. A sepultura foi aberta ao lado do ossário, defronte da sepultura de nossa querida e muito lembrada Madre Dorotéia. Terminado o sepultamento, nossos amigos se retiraram e nos preparamos para as primeiras Vésperas da Solenidade da Dedicação de nossa igreja abacial, 42º aniversário da fundação e início do Louvor Divino em Nossa Senhora da Paz.
A Visita Canônica foi encerrada às 11:30 do dia 21. Ao meio-dia, despediram-se nossos visitadores e seguiram para o aeroporto, onde tomaram o avião para seus destinos.
Nos últimos tempos, irmã Maria Beatriz deixava transbordar, nas reuniões e partilhas, o que trazia no seu coração: a inefável Trindade, que nela habitava desde o seu Batismo. Sempre encontrava um meio de falar dela, com alegria. Isso faz lembrar que, quanto mais próximos do centro de gravidade, mais forte a atração exerce sobre os objetos. Foi certamente, o que sucedeu com nossa irmã: a inefável Trindade a atraía cada vez mais e a sua força de atração a mergulhou no seu mistério, naquela última noite no Hospital. E agora, ela pode cantar com Cristo, por Cristo em Cristo a Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo toda honra e toda glória pelos séculos sem fim.